Dublin (AE-AP) - A República da Irlanda dos folhetos turísticos pode ser terra de santos e de sábios, mas hoje em dia são os ladrões e os corruptos que têm atraído a atenção nacional. Três investigações sobre uma suposta evasão tributária e suborno na poderosa hierarquia irlandesa vêm documentando há meses uma cultura de corrupção que muitos cidadãos suspeitavam, mas que jamais acreditaram que seria exposta.
O ex-primeiro ministro Charles Haughey, a figura política suprema nacional da década passada, confessou que recebeu enormes pagamentos secretos de empresários durante uma época em que o país padecia de graves dificuldades econômicas. Haughey já foi acusado de obstruir a Justiça, mas seus advogados tratam de impedir que os fiscais investiguem suas conturbadas finanças e a eventual influência dos grandes pagamentos em suas decisões oficiais.
Um segundo tribunal investiga o suposto suborno de políticos e funcionários por empresários imobiliários. Um de seus acusados é o ex-funcionário de planificação capital George Redmond, que confessou ter 33 contas bancárias com três nomes que comportam uma soma de 660 mil libras (US$ 1 milhão). Redmond disse que pôde reunir esta fortuna porque era "um funcionário muito aplicado", alegação que o converteu em o "faz-me-rir" de Dublim. Pior ainda, um banco fundado pelo contador de Haughey nas ilhas Cayman foi caracterizado como uma fachada ilegal para fins de evasão tributária por parte de 120 investidores, entre eles um elenco de políticos, banqueiros e industriais irlandeses.
A investigação foi obra de uma pesquisa batizada com o apelido DIRT, que em português significa "sujo", e que corresponde às siglas do tão sonegado imposto sobre os depósitos (Deposit Interest Retention Tax) em contas bancárias. As audiências parlamentares sobre o caso de evasão fiscal foram televisionadas direto para um auditório cativo. O governo se opõe às demandas dos políticos da oposição de que sejam divulgados os nomes dos suspeitos, mas muitos nomes escaparam para a imprensa. O primeiro-ministro Bertie Ahern, que foi ministro das Finanças de Haughey, manifestou estar convencido de que muitos dos investidores da empresa serão julgados por evasão tributária e outros delitos. As revelações, surgidas durante um insólito sexto ano consecutivo de auge econômico, estão alimentando o ressentimento popular e o temor quanto a um inverno de greves, que poderão prejudicar, ou inclusive abater, a pujante economia irlandesa. "Haughey e sua quadrilha de chupins fizeram sermões sobre a necessidade de apertarmos o cinto para o bem do país", disse Bernie Shiels, um dos 27 mil enfermeiros estatais que empreenderam uma greve nacional em outubro pela primeira vez na história irlandesa, em demanda por melhores salários. "Esta mesma gente, estes ladrões, estavam recebendo ao mesmo tempo pagamentos ilícitos, evadindo impostos, desconhecendo as próprias regras que fixaram para os demais", disse Shiels.
Alavancaram o auge econômico irlandês uma série de pactos de restrição salarial feitos pelo governo, pelos sindicatos e pelas empresas a partir de 1987. Esse ano, o governo de Haughey encarava um índice de desemprego de 17%, um déficit fiscal de 1 bilhão de libras (1,6 bilhão de dólares) e uma inflação desbocada. A taxa contributiva para os ricos, aplicável a muitos dos que hoje se vêem envolvidos nos escândalos, havia sido elevada, para lidar com a crise, até 65%. O pacto quatrianual de salários, chamado Associação 2000, limitou centenas de milhares de trabalhadores a incrementos salariais de 3% anuais, mas as coisas mudaram muito e a associação está se degenerando em um salve-se quem puder competitivo. O índice de desemprego é de 6 2%, a inflação de 1,4% e o pressuposto estatal ascende à quantidade sem precedentes de 6,2 bilhões de libras. Os salários dispararam nas profissões e entre os executivos de empresas eletrônicas multinacionais alheias às disposições da Associação 2000. E ameaçaram com greves médicos, policiais, professores, transportadores e condutores ferroviários. Assim como os enfermeiros, seus dirigentes sindicalizados se valem das crescentes denúncias de evasão fiscal nas altas esferas para justificar suas demandas salariais.
Alguns políticos e observadores dizem que a única maneira de conter a maré de descontentamento é obter rápidas condenações por fraude na contribuição e confiscar os fundos mal-gerenciados. O escândalo de corrupção teve uma origem surpreendente: uma disputa no seio da família Hefferman, proprietária da maior cadeia de lojas da Irlanda. Margaret Hefferman, que tratava de se apoderar da junta das Lojas Dunnes, contratou alguns auditores para que documentassem os fundos confusos de seu irmão, Ben Dunne, que costumava dar punhados de dólares e foi preso em Miami na companhia de várias prostitutas e com um monte de cocaína. O informe dos auditores, entregue em 1996, revelou ser politicamente explosivo. Denunciou que Ben Dunne havia dado pelo menos 1,3 milhão de libras a Haughey, cuja vida luxuosa - é proprietário de uma estância histórica, uma fazenda de criação de cavalos, um iate e até sua própria ilha - era impossível de conciliar com seu modesto salário de primeiro-ministro.
O escândalo poderia ter-se limitado a Dunne, mas um de seus cheques destinados a Haughey foi emitido em favor de um misterioso John Furze. Os investigadores falaram que por mais de dez anos, o conselheiro financeiro de Haughey, Des Traynor, canalizou o dinheiro que diversos empresários deram ao primeiro-ministro através de um banco fundado por Traynor, o Ansbacher Ltd. O representante do banco nas ilhas Cayman era Furze. Apesar de distante de Haughey, que havia sido seu mentor político, Ahern encabeçou uma obscura tentativa de impedir que o tribunal encarregado do caso das Lojas Dunne investigasse as manobras do misterioso banco caribenho. Mas aconteceu que a vice-primeira-ministra de Ahern, Mary Harney, dirigente de um partido fundado em 1986 para expor as práticas corruptas do partido de Ahern, Fianna Fail, nomeou seus próprios investigadores. A equipe de Harney falou que Traynor, que havia morrido em 1996, utilizou o banco Ansbacher Ltd. como veículo para que pessoas ricas mantivessem seu dinheiro depositado sem pagar impostos - oficialmente nas ilhas Cayman, mas efetivamente na Irlanda. "As pessoas que se envolveram com a equipe de Ansbacher sabiam que seu criador, Des Traynor, era o cobrador de Haughey. Isso criou um sentimento não só de impunidade, mas também de um tipo de legalidade extra-oficial", disse Fintan OToole, o mais respeitado comentarista social da Irlanda.
A pesquisa DIRT revelou que dezenas de milhares de irlandeses menos abastados também mentiram para os bancos sobre seu lugar de residência, para evadir o pagamento de impostos. Ronan Fanning, professor de história moderna no Colégio Universitário de Dublin, disse que o grosso da ira popular "não é tanto pela evasão fiscal", mas sim "pela indignação popular perante o fato de que nem todos nós temos as mesmas oportunidades de sonegar" o fisco.

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