Guarujá, SP, 07 (AE) - Se a economia não for indexada, a inflação no Brasil este ano não passará de 15% e o País poderá retomar o crescimento econômico no segundo semestre, atingindo um nível sustentável em 2000. A previsão é do presidente da Siemens, Hermann Wever. As empresas alemãs que operam no Brasil trabalham com expectativa de inflação entre 15% e 18% e taxas de câmbio entre R$ 1,70 e R$ 1,80 ao final do ano.
A direção da Siemens vem mantendo expectativa de o Produto Interno Bruto (PIB) cair 4%. Mas a desvalorização da moeda americana trouxe um cenário mais otimista. "Trocamos uma queda de 4% por outra igual, também de 4%. A diferença é que com a desvalorização cambial podemos sair da crise no segundo semestre porque a pior parte dessa queda vai se concentrar nos primeiros seis meses", disse Wever.
O executivo alemão alerta, no entanto, para a necessidade de evitar a indexação: "Como podemos prever que o dólar atingirá em 31 de dezembro cotação de R$ 1,70 com uma inflação de 15%? Porque, como a economia não está indexada, não há poder aquisitivo para absorver aumentos de preços. Se cedermos a isso, tudo irá por água abaixo e voltaremos à época do Sarney."
Segundo o presidente da Câmara Brasil-Alemanha, que encerrou hoje, no Guarujá, um seminário dirigido a jornalistas, Ingo Ploger, o câmbio a R$ 1,70 é adequado à expectativa dos alemães. Ele lembrou que os empresários vinham apontando a necessidade de desvalorizar o câmbio entre 15% e 20% para uma inflação anual de 7%, segundo respostas colhidas em questionário distribuído pela Câmara.
"Nessa conta, o dólar poderia chegar a R$ 1,50, mas, agora, com uma inflação de 15% é correto que a moeda americana alcance cotação de R$ 1,70", explicou. Para Wever, da Siemens, a desvalorização chegou tarde e carregou erros. No entanto, o governo entrou no caminho certo ao optar pela desvalorização como forma de atrair capital estrangeiro para investimentos no País. Déficit
Quadro já traçado pela direção da Siemens prevê a queda do déficit da balança de pagamentos para US$ 20,2 bilhões este ano. O déficit atingiu US$ 34,9 bilhões no ano passado e US$ 33 4 bilhões em 1997. A mesma previsão da empresa alemã projeta uma aumento de US$ 6 bilhões nas exportações. "Não vai ser fácil, porque, apesar da desvalorização cambial, não existe linhas de crédito e precisamos ainda reconquistar os clientes do exterior", previu Wever.
Se a previsão se concretizar, o volume das exportações vai aumentar dos US$ 51,120 bilhões do ano passado para US$ 57 bilhões. Ao mesmo tempo, o total de importações poderá cair de US$ 57,5 bilhões para US$ 53 bilhões. A própria Siemens deverá elevar o faturamento das exportações para US$ 150 milhões, 15,4% mais do que no ano passado, quando as suas vendas ao exterior totalizaram US$ 130 milhões.
Para Wever, "o Plano Real inviabilizou a isonomia competitiva do Brasil no exterior". O País saiu de superávit de US$ 10 bilhões em 1993 para déficits de US$ 8,5 bilhões em 1997 e de US$ 6,4 bilhões em 1998. Com isso, a participação do Brasil no comércio mundial caiu de 1,4% em 1994 para 0,9% em 1998.
Na década de 80, as exportações mundiais somavam US$ 2 trilhões por ano. No ano passado, já estavam em US$ 6,5 trilhões. Esse crescimento, que ele chamou de materialização da globalização, demonstra que, enquanto a exportação "ficou mais sofisticada em todo o mundo, no Brasil, regrediu".
O presidente da indústria química Henkel para o Mercosul
Klaus Behrens, também trabalha com uma inflação de 15% este ano e uma cotação de dólar a R$ 1,75. O presidente do conselho de administração da Bosch, Rolf Leeven, disse que essa indústria de autopeças conta com uma inflação de 18% e câmbio a R$ 1,80.

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