Nova York, 14 (AE-DOW JONES) - A alta da inflação nos Estados Unidos provocou pânico hoje (14) em Wall Street, derrubou o mercado acionário americano e arrastou as bolsas do mundo todo.
Antes da abertura dos pregões em Nova York, o Departamento de Trabalho dos EUA informou que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,7% em março, a maior alta em 11 meses.
O núcleo da inflação, que exclui produtos e serviços mais suscetíveis a variações sazonais de preço, como energia e alimentos, elevou-se 0,4%, o dobro do que esperava a maior parte dos analistas de mercado. Foi a maior alta do núcleo desde 1995.
O temor de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) tenha de elevar substancialmente o juro básico da economia para conter as pressões inflacionárias fez a bolsa eletrônica Nasdaq registrar a pior queda em pontos de seus 29 anos de história - 356 pontos, ou 9,67%.
O Índice Dow Jones, que reúne as principais ações dos Estados Unidos, encerrou a sexta-feira em queda de 5,66%, a pior desde 27 de outubro de 1997, em plena crise asiática.
No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 4 55%, fechando abaixo dos 15 mil pontos pela primeira vez desde 17 de dezembro do ano passado. No mercado de câmbio, o dólar chegou a bater R$ 1,795 na máxima do dia, mas recuou e fechou cotado por R$ 1,782. Operadores disseram que o Banco Central (BC) consultou o mercado sobre os preços de compra e venda da moeda, o que teria feito as cotações recuarem.
As bolsas européias e latino-americanas também foram engolidas pelo furacão vindo de Nova York. A Bolsa do México despencou 7 93% e a da Argentina, 6,03%. Na Europa, a Bolsa de Frankfurt caiu 3,14%, a de Paris, 3,17%, a de Londres, 2,81% e a de Milão, 2,38%.
"Os dados sobre inflação divulgados hoje são a primeira evidência real de que a inflação está aparecendo no quadro", afirmou o analista-chefe da Wall Street Strategies, Charles Payne. "Para piorar, o mercado já estava vulnerável."
Para o estrategista-chefe de investimentos da Prime Charter Ltd., Scott Bleier, a sexta-feira "significou o capítulo final do frenesi que se iniciou em outubro passado e quebrou as costas dos investidores complacentes".
Até hoje, a maioria absoluta dos analistas econômicos mundiais acreditava que as correções nas bolsas americanas, principalmente a Nasdaq, se devia à supervalorização dos preços das ações.
No entanto, as brutais quedas de hoje levantaram suspeitas de uma crise sistêmica nos Estados Unidos, que resultaria na quebra de instituições financeiras, como bancos e fundos de investimento.
Nesse cenário, os efeitos sobre a economia americana seriam preocupantes, pois muita gente perderia dinheiro e, assim, deixaria de consumir. Seriam certas as consequências sobre a economia real do país, algo considerado remoto até hoje.
Por conta dessa dúvida, o economista Christian Vecchi, da Tendências Consultoria Integrada, entende que o Fed estará diante de um dilema em sua próxima reunião, marcada para 16 de maio.
Segundo explica, qualquer banco central do planeta deve elevar o juro por causa de ameaças inflacionárias. Ao mesmo tempo, porém, o Fed tem de levar em conta o risco sistêmico.
Nesses casos, a receita indicada é reduzir o juro, para aliviar a tensão e manter a estabilidade do mercado financeiro. Foi o que ocorreu em agosto de 1998, quando quebrou o fundo de hedge Long Term Capital Management. "Os integrantes do Fed estão encerrado no córner de um ringue", compara Vecchi.
Em razão desse risco sistêmico, o estrategista-chefe do Deutsche Bank para a América Latina, Renato Grandmont, acredita que, em sua próxima reunião, o Fed poderá optar por manter ou até reduzir os juros nos Estados Unidos. Para os próximos dias, o economista da Tendências espera que os investidores continuem inseguros. "Neste momento, ninguém sabe para onde ir", avalia.
Ele alerta para os dados sobre balança comercial norte-americana, que serão divulgados segunda-feira. A expectativa é de que, como vem ocorrendo nos últimos meses, seja registrado um grande déficit.
A sexta-feira "sangrenta", como chegaram a definir alguns analistas em Wall Street, ficará marcada como o dia de pior queda conjunta dos três principais índices do mercado acionário americano. O Índice Dow Jones fechou em queda de 617,78 pontos, para 10.305,78 pontos, e o Nasdaq perdeu 355,49 pontos, para encerrar a sexta-feira em 3.321,29 pontos. O Standard & Poors (S&P), índice amplo que reúne 500 ações da economia tradicional, caiu 83,20 pontos ou 5,78%, para 1.357,31 pontos.

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