Indústrias negam cartel dos remédios
Isabel Versiani
Agência Folha
De Brasília
Participantes da reunião em que teria sido combinado boicote aos remédios genéricos se contradisseram ontem em depoimento à CPI dos Medicamentos. Ney Pauletto Júnior, gerente de vendas do laboratório Janssen-Cilag, e Nilson Ribeiro, atual gerente comercial da distribuidora de remédios Panarello, estavam prestando esclarecimentos, como testemunhas, sobre o encontro, que reuniu, em julho de 99, em São Paulo, gerentes de 21 laboratórios de remédios.
Ata da reunião que veio a público em outubro indica que, no encontro, teria sido combinado um boicote aos distribuidores de remédios genéricos, o que caracterizaria cartelização.
A Polícia Federal instaurou inquérito sobre o caso, que também está sendo analisado pela Secretaria de Direito Econômico. Ontem, Pauletto, autor da ata da reunião que deu origem ao processo, afirmou que suas anotações sobre o encontro foram feitas a pedido de Ribeiro, organizador do evento. Na data da reunião, Ribeiro era gerente de vendas demissionário da Janssen-Cilag e Pauletto, então gerente de promoção, era candidato a assumir o seu cargo.
Pauletto disse que, na reunião, informal e tumultuada, não teria sido discutido um boicote aos genéricos, mas sim formas de lidar com os laboratórios produtores de similares que estavam fazendo propagandas enganosas sobre genéricos.
Genéricos são medicamentos que passam por testes de bioequivalência e são idênticos aos de marca. Eles serão vendidos somente pelo nome da substância ativa. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária informou que 21 laboratórios já apresentaram pedido de registro de 157 medicamentos genéricos. Os primeiros registros devem sair nos próximos dez dias. Os remédios similares aos de marca não passam pelos testes de bioequivalência e já estão à venda. Pela legislação, eles precisam trazer na embalagem um nome de fantasia.
Pauletto frisou que, na ocasião, não tinha intimidade com a área de vendas e, por essa razão, talvez não tenha relatado bem o transcorrido na reunião, a qual, segundo ele, tinha um caráter informal. Ribeiro negou que tivesse pedido para Pauletto preparar uma ata da reunião e afirmou que em nenhum momento do evento foi discutida a questão dos genéricos.
Não era uma reunião de trabalho, mas uma congregação entre colegas da mesma área. Havia quatro anos que promovíamos esses encontros. Ribeiro afirmou que o laboratório Janssen-Cilag sabia que ele estava participando da reunião, mas que as despesas do almoço promovido depois da reunião foram pagas de seu próprio bolso.
Pauletto disse que a empresa não sabia do seu envolvimento com a reunião e que ele teria sido severamente repreendido depois que o caso veio à tona.
O presidente da CPI, deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS), disse que na semana que vem a comissão votará requerimento de convocação dos dois depoentes para uma acareação. O relator da CPI, deputado Ney Lopes (PFL-RN), disse que, para comprovar a prática da cartelização, a comissão ainda terá de provar que a reunião foi feita com o conhecimento das empresas e que os gerentes discutiram sabotagem contra os genéricos.
Os gerentes que participaram da reunião em julho pertenciam aos seguintes laboratórios: Abbott, Eli Lilly, Schering Plough, Roche, Searle, Biosintética, Bristol, HMR, Bayer, Eurofarma, Organon, Glaxo Wellcome, Merck Sharp Dohme, Merck, Astra Zeneca, Boeringher, Centeon, Sanofi, Whitehall, Janssen-Cilag e Byk.Gerentes de laboratórios disseram ontem à CPI que reunião realizada em outubro do ano passado não teve objetivo de iniciar boicote aos genéricos
Agência EstadoCONTRADIÇÃONey Pauletto Júnior, gerente de vendas do Janssen-Cilag, durante depoimento: reunião informal





