São Paulo, 29 (AE) - As chuvas torrenciais de janeiro e fevereiro não estão sendo suficientes para recompor os reservatórios das hidrelétricas da Região Centro-Sul nos níveis históricos desta época do ano e afastar o risco do racionamento de energia elétrica. O cenário já preocupa a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que teme problemas com o fornecimento de energia elétrica nos próximos meses, em caso de uma retomada do crescimento mais rápido do que o esperado.
"Estamos analisando a adoção de uma política de racionalização do uso de energia para enfrentarmos os próximos três meses", disse o diretor do Departamento de Infra-estrutura da Fiesp, Luiz Gonzaga Bertelli. "Se a retomada do crescimento da economia for muito rápida, poderá ocorrer racionamento."
Entre os industriais paulistas, é forte a convicção de que o baixo nível dos reservatórios poderá tornar ainda mais frágil o equilíbrio entre a oferta de energia no próximo ano, principalmente se ocorrer um crescimento significativo do consumo neste ano, por causa da esperada recuperação da economia. "Para cada ponto porcentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), registra-se 1,5 ponto porcentual de expansão da demanda", explica um especialista do setor elétrico ligado à indústria.
"Não deveremos chegar ao mês de abril, fim da temporada chuvosa, com um índice superior a 60%, quando historicamente não temos registrado índices abaixo de 70% para esse período", afirma o secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce.
Arce não acredita, porém, que ocorrerão problemas com o fornecimento neste ano. Segundo ele, os projetos de geração de eletricidade com início de operação previsto para 2000 - que somam uma potência instalada de 4,2 mil megawatts (MW) - deverão dar folga ao sistema neste ano. "Teremos alguma folga, principalmente porque vão começar a operar usinas nuclear e térmicas, que não precisam de água para funcionar."
Ele alerta, porém, que "a situação pode ficar mais difícil de administrar em 2001, se não tivermos uma boa temporada de chuvas no próximo ano". Ao iniciar o período de seca com um nível médio de enchimento de 60%, os reservatórios poderão chegar ao início do próximo período de cheia, em dezembro, com um nível médio de 10%, prevê Arce. "Aí teremos de rezar para chover bastante." Ele acrescenta que, para 2001, a previsão é de que deverão começar a operar projetos que somarão apenas entre 1.300 a 1.400 MW de potência.
Segundo Bertelli, a Fiesp deverá fazer um levantamento próprio da situação do sistema elétrico - tomando dois cenários, um mais otimista, com crescimento acima de 4%, e o outro mais pessimista, com expansão abaixo dessa marca - para ter uma real dimensão da situação. "Nós não temos mecanismos de acompanhamento do setor para saber se os projetos que o governo anuncia em verso e em prosa estão virando realidade", diz Bertelli.
Ele acrescentou que a Fiesp e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) não têm sido bem-sucedidas nos pedidos de reuniões do Conselho Superior de Política Energética, criado no ano passado.

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