Indústria nacional tenta recuperar clientes que aderiram aos importados
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sexta-feira, 12 de março de 1999
Por Isabel Dias de Aguiar 
São Paulo, 13 (AE) - A nova política cambial mudou a rotina na Francana, uma pequena indústria metalúrgica fabricante de ferragens para calçados, cintos e bolsas. Após quase quatro anos de pedidos minguados e receita justa para cobrir as despesas, os donos da empresa, os irmãos Aureo e William Simaro se surpreenderam com a chegada de novos clientes. As propostas para o desenvolvimento de novos produtos não chega a entusiasmar os empresários. Estão sendo recebidas até com uma certa desconfiança, uma vez que o atendimento da maioria dos pedidos implica despesas, nem sempre ao alcance da empresa. Essas limitações fazem com que a Francana só se disponha a atender às encomendas de fregueses antigos e confiáveis.
A experiência dos dois jovens empresários, que herdaram o negócio do pai bruscamente, após sua morte súbita, projeta uma nova realidade para as indústrias nacionais que desde 1994 vinham enfrentanto a concorrência desigual dos produtos estrangeiros, cuja importação vinha sendo estimulada pelo câmbio valorizado e pelo financiamento barato oferecido pelos concorrentes do exterior. Essa situação levou muitas empresas a frear as atividades para níveis, em alguns casos, abaixo de 50% da capacidade instalada e a demitir parte o quadro de pessoal. Muitas mudaram de mãos, diante da impossibilidade ou desinteresse dos acionistas.
Esse não foi o caso da Milfra, indústria de componentes eletrônicos do presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Benjamin Funari. O processo de desmonte do ramo de componentes eletrônicos, que passaram a ser importados na forma de kits completos a custo reduzido e financiados por prazos de até 500 dias, fez com que o número de funcionários da Milfra fosse reduzido de 750 para 71. O índice de ociosidade na indústria varia hoje entre 50% e 60%.
Esse quadro fez com que o número de empresas no ramo também se reduzisse drasticamente. Há quatro anos eram 220. Hoje
são apenas 55 os fabricantes de componentes para a indústria eletroeletrônica. Inteligência - "Mas a minha inteligência permanece lá", afirmou Funari, referindo-se aos empregados qualificados, capacitados a desenvolver projetos e a atender pedidos para a fabricação de produtos de tecnologia de ponta, exatamente os mais cotados nesse novo mercado que surge, estimulado pela necessidade das empresas de produtos eletroeletrônicos substituir importações e evitar alta de custos.
A sobrevivência da Milfra só foi assegurada porque seus dirigentes decidiram investir recursos próprios para mudar processos, terceirizar atividades e possibilitar receita mínima para evitar a quebra da empresa. "Vendi boa parte do meu patrimônio para impedir que a empresa fechasse", afirmou o presidente da Abinee. Engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Funari é um aficionado pela alta tecnologia, o que o levou a adquirir equipamentos sofisticados, como prensas de até 600 batidas por minuto. Essas máquinas oferecem condições para atender aos pedidos no padrão e na velocidade solicitados pelos clientes, que haviam trocado seus produtos por importados e agora são obrigados a pedir socorro para não encarecer ainda mais a produção.
As dificuldades que serão enfrentadas pelos donos da Milfra são semelhantes aos da Francana. Para aproveitar as oportunidades oferecidas pelo novo regime cambial, terão de investir em ferramental, moldes (para peças de plástico) e estampos (para metal). Os equipamentos básicos para retomar a produção foram conservados pelas indústrias sobreviventes, mas elas têm de adequar o ferramental às novas necessidades dos clientes. Uma ferramenta como essa, segundo Funari, custa entre R$ 100 mil e R$ 700 mil.
Numa indústria como a Francana, as necessidades de investimento não são tão elevadas, mas suficientemente altas para obrigar seus diretores a investigar o cliente para averiguar se a aplicação desses recursos será compensadora. Aureo Simaro diz que até o momento se dispôs a atender a apenas um cliente. Como é freguês antigo, sabe que irá honrar o pedido de acessórios para artigos de vestuário. Mas está certo que, pouco a pouco, novas encomendas chegarão, partindo especialmente das indústrias de confecção e de calçados que desistiram do produto importado.
Para atender a esse novo mercado, os irmãos Simaro estão voltando aos bancos, numa tentativa de obter financiamentos para a construção desse ferramental. Até agora, só obtiveram negativas. "Temos recebido recados de que precisamos oferecer reciprocidade." Para os empresários, segundo informam, fica difícil oferecer essa reciprocidade, uma vez que têm de depositar o que sobra das reservas nessa nova aposta.
Perfil - O novo regime cambial deverá contribuir para mudança no perfil do mercado, mas certamente, a curto prazo, não deverá compensar os efeitos da recessão que deverá ocorrer nos próximos meses, segundo análise feita pelo diretor do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Franz Reimer. O processo de substituição de importações poderá ajudar a engordar o faturamento de algumas empresas, acredita. Os efeitos sobre a economia do País, entretanto, só deverão ser sentidos a médio prazo, diz o diretor do Depencon.
"Estamos tentando olhar além das pedras", afirmou o presidente de Operações da Natura, Pedro Luiz Barreiros Passos, que, no entanto, mostra estar consciente de que haverá "muito tiroteio" até meados do ano. Tratando-se de uma indústria de cosméticos, a recessão deverá levar a uma retração do mercado. Mas a desvalorização cambial deverá contribuir para uma pequena compensação dessa perda, por meio da migração de consumidores, antes fiéis a marcas internacionais. Para garantir esse espaço, a Natura também toma algumas providências, como a de substituir fornecedores de embalagens e outros componentes do produto. Tenta assim compensar a alta de custos provocada pelo novo câmbio.
Passos diz que, apesar da turbulência na economia, nota um mobilização nas empresas multinacionais, que começam a planejar a produção de matérias-primas no País. "Era uma idéia antiga, estimulada pelo mercado brasileiro e pela possibilidade de transformar a futura fábrica em plataforma de exportação".


