Indústria e produtores rejeitam taxa sobre exportação de soja
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Renato Stancato 
São Paulo, 04 (AE) - O presidente da Associação das Indústrias de àleos Vegetais (Abiove), Sérgio Barroso, disse hoje que a entidade é contrária à taxação das exportações. "Seja taxação dos grãos seja de todo o complexo, a Abiove é contrária a qualquer mecanismo artificial que altere o mercado"
afirmou Barroso.
A proposta de taxar as exportações de todo o complexo da soja, ou pelo menos do grão, foi levantada na quarta-feira pelo secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Cláudio Considera. Com a medida, Considera esperava impedir um desabastecimento de ração no mercado brasileiro.
De acordo com Barroso, que é também presidente da Cargill no Brasil, é preciso encontrar mecanismos que não prejudiquem o produtor. "Não adianta matar o produtor, porque senão não sobrevivemos", disse. "O que é preciso é criar ainda mais excedentes de soja para que a produção seja suficiente para exportar grão e para fazer a indústria trabalhar em sua plena capacidade", declarou. "Penalizar o produtor não é a saída."
A proposta de taxar as exportações de soja em grão foi energicamente repudiada por Antônio Chavaglia, presidente da Comigo, uma cooperativa com sede em Rio Verde (GO). A Comigo, que deve receber de seus cooperados 350 mil toneladas de grão nesta safra, tem dividido os lotes entre o esmagamento, comercialização interna e exportação. Nem por ter uma indústria própria uma eventual taxação do grão é relevada por Chavaglia. "Já temos alguns contratos de exportação fechados e isso só tumultuaria o mercado", disse.
Para o presidente da Comigo, a idéia de que taxar a exportação do grão ampliaria o abastecimento de farelo para os criadores é ilusória. "Isso vai aumentar a margem da indústria, mas não vai impedir que a mesma soja seja exportada na forma de farelo e óleo", declarou.
Chavaglia vê risco de a proposta tornar complicada a comercialização do grão no mercado interno. "A indústria não tem capital de giro para carregar estoques, e com os juros altos praticados, isso será um desastre", afirmou.
Os preços do complexo soja no mercado interno estão menores que os praticados à mesma época do ano passado, segundo Chavaglia. "Está havendo muito alvoroço com essa crise toda, mas só peço que olhem para trás em fevereiro passado e comparem os preços", afirmou.
De acordo com Chavaglia, os preços do farelo atingiram R$ 350,00/tonelada e os preços da soja em grão, R$ 18,00/saca. Hoje, a saca de soja estava sendo comercializada na região a R$ 16,00/saca, e o farelo está em torno de R$ 300,00/tonelada. "No ano passado, o preço estava mais alto e nem por isso houve essa gritaria toda", disse Chavaglia.
Câmbio - O presidente da Comigo destaca que a desvalorização cambial deu um alento para o produtor brasileiro exportar. "É preciso lembrar que os preços internacionais estão muito baixos", afirmou.
A taxação da exportação do grão penalizará as áreas de fronteira agrícola que cultivam soja voltada para exportação, segundo o produtor Adílton Sachetti, do Mato Grosso. Sachetti concentra 70% de sua produção no município de Sapezal, no oeste do Estado. A região, separada das indústrias do Estado por centenas de quilômetros de uma estrada de terra, utiliza-se de um terminal graneleiro fluvial para escoar sua produção para a Amazônia, onde é exportada.
"Com os preços atuais da soja na bolsa de Chicago, não consigo tirar lucro nem com a exportação", afirmou Sachetti. "Estou chocado com essa proposta do governo, um verdadeiro confisco."
O produtor alega que um suposto ganho em reais que a desvalorização cambial gerou não é desculpa para a criação de um imposto. "Eu tenho 70% dos meus custos atrelados ao dólar, e isso significa um tremendo prejuízo no caso de haver essa taxa"
afirmou.


