'Indústria' do cemitério gera emprego
Sid Sauer
De Campo Mourão
Nair da Rocha da Silva, 55 anos, era empregada doméstica até 1982, quando o marido dela, o servidor público municipal José Lázaro da Silva, 63 anos, foi transferido para o Cemitério Municipal São Judas Tadeu, o único urbano de Campo Mourão. A conselho do marido, dona Nair trocou o trabalho doméstico pela limpeza de túmulos e nunca mais saiu do cemitério. Mais: levou uma filha dela, Iraci, 30 anos, para ajudar nos serviços.
Dona Nair e a filha são duas das cerca de 20 mulheres que hoje trabalham limpando túmulos no São Judas Tadeu. Nenhuma delas é empregada da prefeitura. Elas cobram das famílias dos mortos para a limpeza dos jazigos. O preço pelo serviço varia de R$ 5,00 a R$ 10,00 por mês, dependendo do tamanho do túmulo. Dona Nair só não revela quando chega a faturar por mês. Nunca contei quantos túmulos limpo, diz.
Maria Ivone, 38 anos, também trabalha limpando túmulos. Ela faz parte de uma equipe de quatro mulheres que trabalha para a mãe dela, que começou o serviço há 15 anos. Limpamos uns 150 túmulos por dia, conta Ivone. Segundo ela, uma boa limpadeira pode ganhar até R$ 500,00 por mês. Eu ganho uns R$ 250,00, mas só trabalho até o meio-dia. Ela está no cemitério há cinco anos e não pensa em sair. Mas todas as mulheres que trabalham aqui têm problemas de coluna, ressalva.
Já Aparecida da Silva, 51 anos, também no cemitério há cinco anos, não acredita que seja possível ganhar tanto. Ela diz que recebe cerca de R$ 200,00 mensais limpando em torno de 25 túmulos todos os dias. Antes de limpar túmulos, Aparecida era bóia-fria. Aqui é muito melhor, conta. O serviço é menos pesado e a gente trabalha mais livre.
Todas as mulheres que trabalham no cemitério, no entanto, têm uma reclamação em comum: o calote. As pessoas contratam nossos serviços e depois não pagam, queixa-se Aparecida. Já perdi muito serviço. Dona Nair lembra que algumas pessoas negam que tenham pedido a limpeza dos túmulos e se recusam a pagar. Outros dão um monte de desculpas para não pagar, ressalta. O atraso no pagamento é outro problema das limpadeiras de túmulos.
Pedreiros O cemitério não gera emprego apenas às mulheres que limpam túmulos. Pelo menos dois pedreiros mantêm ponto fixo no São Judas Tadeu. Cada um deles costuma ter um servente. O mais antigo pedreiro do cemitério é Joaquim Sabino, 64 anos, que trabalha no local há 27 anos. Aqui nunca faltou serviço, conta. Ele diz, porém, que o serviço requer experiência e que já viu muito pedreiro bom quebrar a cabeça e fazer serviço mal feito.
Outros 12 empregos são gerados pela prefeitura, que mantém no cemitério três coveiros, um servente geral, quatro funcionários administrativos, dois vigiais e duas zeladoras. Somando tudo, entre servidores municipais, zeladoras de túmulos, pedreiros e serventes, o Cemitério São Judas Tadeu gera 36 empregos.
O coveiro José Lázaro da Silva, marido de dona Nair, se sente em casa dentro do cemitério. Pelo menos saio de casa sabendo onde vou trabalhar, conta. Há 21 anos na prefeitura, ele ficou quatro anos compondo uma equipe de trabalhadores volantes que se deslocava pelo município. Outro coveiro, Ezuil Chanan, 48, está no local há apenas sete meses. O cemitério é o melhor lugar para se trabalhar na prefeitura, diz. Aqui ninguém incomoda a gente.





