São Paulo, 02 (AE) - Os representantes da indústria de autopeças aceitaram participar do acordo emergencial para reativar a venda de veículos. Assim, o setor também se compromete a dar estabilidade no emprego durante período de três meses - que pode ser estendido a seis - se o governo reduzir impostos. Se não houver nenhum tipo de estímulo para baixar os preços e o mercado fechar este ano em 1,1 milhão de veículos, conforme previsão do setor, a indústria de autopeças pode demitir 50 mil trabalhadores, segundo o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes Automotivos (Sindipeças), Paulo Butori.
O fechamento de 50 mil postos significaria a extinção de quase um terço das vagas mantidas hoje. No ano passado, o setor já demitiu 19.400 trabalhadores, fechando o ano de 98 com 167 mil empregados. Butori reuniu-se hoje com os sindicalistas da CUT e da Força Sindical, que vão levar ao governo a proposta de redução de Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nos carros como forma de os preços baixarem, em média, 11,8%.
Os sindicalistas aguardam a posição do governo para uma reunião. A princípio, o encontro seria amanhã, mas o governo cancelou em razão das mudanças no comando do Banco Central. Os dirigentes levarão ao governo a posição das montadoras e do Sindipeças, concordando em manter o nível de emprego em troca da redução da carga tributária. Entretanto, não houve, até agora, nenhum sinal dos fabricantes de veículos de que concordam em suspender os recentes aumentos de preços.
Os sindicalistas haviam incluído a suspensão dos aumentos, que vêm ocorrendo desde a semana passada, como condição para que a indústria fosse beneficiada com a redução de impostos. Mas as montadoras argumentam que estão apenas repassando o custo com outros impostos. A nova alíquota da Cofins foi o motivo apontado ontem e hoje para aumento de preços que variam entre 2,6% e 3 5%.
A redução de IPI e ICMS para um acordo emergencial, se aprovada pelo governo federal, vai beneficiar diretamente as montadoras. Mas a indústria de autopeças também tem a ganhar com o aumento das encomendas. Segundo o presidente do Sindipeças, a proposta é bem-vinda porque garante o aumento dos volumes de produção. "Trata-se de um baita oxigênio que se não vier vai ocasionar a catástrofe das catástrofes, levando o setor a regredir ao que era no final dos anos 80", disse Butori.
Dólar - Segundo Butori, os fabricantes de componentes estão negociando à exaustão com os fornecedores que querem lhes repassar aumentos de custos por conta da desvalorização cambial. Há três frentes de fabricantes de autopeças, segundo ele: uma formada pelos que compram de quem efetivamente têm que repassar reajustes porque trabalham com insumos estrangeiros, os que importam insumos e não têm saíde e os "espertinhos", que se aproveitam da situação para aumentar a margem de lucro.
O empresário não detalhou qual o impacto final dessas negociações, mas garantiu que a indústria de autopeças não conseguiu repassar nada às montadoras. "Mas teremos que repassar todos os aumentos por absoluta necessidade,porque nossas empresas não sobreviveriam", destacou. O setor, no entanto, está otimista em relação à sua balança comercial, que será beneficiada com a devalorização cambial.
Butori prevê que o faturamento com as exportações este ano vai somar US$ 4,7 bilhões. Isso garantirá um superávit próximo de US$ 600 milhões. No ano passado, quando foi exportado o equivalente a US$ 4,2 bilhões, houve superávit de apenas US$ 32 milhões. Além disso, o setor conta com aumento da nacionalização dos veículos. As montadoras estão aumentando a quantidade de peças compradas no Brasil, para fugir dos prejuízos com a desvalorização cambial. No entanto, a queda de preços e de vendas no Brasil, poderá fazer o faturamento da indústria de autopeças cair dos US$ 14,5 bilhões do ano passado para US$ 10 bilhões. Butori calcula que o câmbio deverá se estabilizar em R$ 1,55.

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