São Paulo, 20 (AE) - A União Industrial Argentina (UIA) quer que o Mercosul volte a adotar os regimes de adequação que estavam em vigor até dezembro do ano passado. A adoção desses regimes nos quatro países membros significaria, por exemplo, a imposição de barreiras tarifárias para determinados produtos durante o período necessário até que esse ou aquele setor industrial pudesse adequar-se ao livre comércio, cuja meta é o mercado comum.
Em longa entrevista ao jornal "Ambito Financiero", o secretário da UIA, José Ignácio De Mendiguren, diz que a idéia seria encontrar uma "nova equação" para cada um dos setores que hoje sofrem com a diferença de preços relativos gerada pela desvalorização do real, em janeiro do ano passado. "Em vez de o Mercosul andar em direção da harmonização acabou tomando a rota divergências, já que, até agora, foram reduzidas apenas as tarifas alfandegárias e eliminados os regimes de adequação", afirma De Mendiguren na entrevista ao jornal argentino.
O dirigente argumenta ainda que o Tratado de Assunção estabelecia três fases para chegar a um verdadeiro mercado comum entre os quatro países. Primeiro, a instauração de regimes transitórios comuns de adequação. Depois, a institucionalização do Mercosul com a criação de tribunais para a solução de conflitos comerciais e, finalmente a convergência macroeconômica.
Apesar das pressões do setor privado argentino, que começaram a intensificar-se com a guerra fiscal no Brasil, o presidente Fernando de la Rúa declarou ontem (19), durante um evento do setor agrícola, que o Mercosul não dará um passo atrás. "Temos de reconhecer que existem problemas, mas descartamos definitivamente dar um passo atrás no processo de integraçãpo", disse De la Rúa.
Uma alta fonte do governo argentino disse à Agência Estado, por telefone de Buenos Aires, que o importante no momento é ter uma visão ampla para superar os problemas conjunturais e, com isso, tentar transformar o bloco em um verdadeiro mercado comum. Mas, acrescentou essa fonte, é importante também que o governo brasileiro tenha consciência dos "efeitos transitórios" da desvalorização do real. "Digo transitórios porque acreditamos que uma política fiscal responsável conduzirá o Brasil para o crescimento e para uma progressiva convergência da taxa de câmbio real", afirmou.
De acordo com essa fonte, o real deve valorizar até o final do ano e isso possibilitará a redução das tensões comerciais entre os dois países. A fonte afirmou ainda que é imperativamente necessário ordenar e reduzir os subsídios que permitem a instalação de empresas com vantagens distorcidas, que
além de provocar as tensões, contribuem com a desordem das políticas fiscais dos dois países. "Temos de limitar as medidas unilaterais no Mercosul", disse.
"Se alguém acredita que não ter o mesmo regime cambial não é ideal, eu tenho a total certeza de que ter regimes diferentes não implicam dificuldades irremediáveis para o Mercosul, desde que ambos os países tenham o firme compromisso de resolver os problemas", acrescentou essa fonte.

mockup