Indonésia quer enterrar nas urnas a era Suharto
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sexta-feira, 04 de junho de 1999
Por Pepe Escobar 
Jacarta, 05 (AE) - Os gargantuais, intoxicantes e ensurdecedores carnavais de rua desta última semana em Jacarta - a capital política - e Yogyakarta - a capital cultural - já entraram para a história: a Indonésia, hoje, é uma cadeia de vulcões expelindo democracia.
Os superlativos são inevitáveis. Amanhã, o megaarquipélago embarca em sua primeira eleição nacional multipartidária em quase 45 anos. A quarta nação mais populosa do planeta - e mais populosa nação de maioria muçulmana - está para converter-se na terceira maior democracia do planeta, depois de Índia e Estados Unidos.
É quase uma ficção científica imaginar que há apenas um ano - derrotado pela crise asiática, e depois por protestos estudantis e exigências de reforma - o soberano javanês Suharto caía sem estrondo e sem gemido de seus 32 anos de poder absoluto.
Mas "o ano em que vivemos em perigo" da Indonésia-98 deixou o megaarquipélago em cinzas - políticas e econômicas.
Essas eleições agora catalisam o impulso avassalador que permeia toda a nação desde maio de 1998: é preciso mudar. Mas apenas depois das eleições os eleitores poderão ter uma idéia do que pode mudar - e em que ritmo. A infante democracia indonésia, neste momento, precisa de tudo. Precisa de mais benefícios para os pribumis - os indonésios nativos -, e não tanto para os magnatas chineses. Precisa de uma urgente redistribuição de renda. Precisa dar atenção total a suas minorias étnicas e religiosas.
Precisa devolver poder a áreas rurais e distantes do centro - Jacarta. Precisa redimensionar o papel das Forças Armadas. Precisa sanear seus bancos falidos. Precisa decidir não "se", mas "como" Suharto deve ser processado.
Esta é a única nação que sofreu a avassaladora crise asiática e hoje é obrigada a reconstruir, ao mesmo tempo, sua economia e sua política. Mas, para os prováveis 130 milhões de eleitores, essas questões nem se apresentam, no momento. Todos, nas ruas, já elegeram a mudança principal: a partir do próximo governo, chega de corrupção, favoritismo e nepotismo. De acordo com a KPU - a comissão eleitoral -, 85% dos eleitores registraram-se para votar, embora, para algumas ONGs, o total não passe de 50%.
Ao contrário dos exercícios rituais da nova ordem de Suharto, a expectativa generalizada é de uma eleição limpa - monitorada por dezenas de grupos de estudantes, ONGs, observadores internacionais e uma imprensa local livre e combativa.
Os dois principais combatentes são dois partidos estabelecidos pelo incontornável Suharto. O Golkar, o partido do sistema, hoje está nas mãos do presidente Habibie. O Pequeno Grande Homem já espalhou aos quatro ventos que seu grande feito em um ano de governo foi impedir que a Indonésia se transformasse em uma Iugoslávia ou uma Rússia.
Habibie pode ter protegido ferozmente seu ex-mentor Suharto, mas não foi um inepto. A rupia está estável, a cerca de 8 mil em relação ao dólar (em 1998 havia despencado a 17 mil), e a inflação este ano será de cerca de 10%. Pode-se arguir que tudo isso se deva à extraordinária capacidade de resistência de países continentais como Indonésia e Brasil.
O outro combatente de peso é uma facção do Partido Democrático da Indonésia - PDI, rebatizado PDI-P, de "perjuangan", "luta", dirigido pela filha do pai da pátria, Sukarno, Megawati. Em nenhuma das últimas pesquisas o Golkar consegue atingir mais de 20% dos votos (antes, vencia por uma média de 90%). O que interessa para um partido, nessas eleições, é conseguir o maior número de cadeiras na DPR - o Parlamento -, para depois barganhar na MPR - o colégio eleitoral que deverá escolher o novo presidente, no fim de outubro.
Por enquanto, estamos apenas no início da longa e tortuosa estrada dessa democracia-bebê. Depois de décadas do amarelo do Golkar vencendo todas as eleições - com os outros dois partidos legais no papel de eunucos -, os eleitores agora são confrontados com uma cédula eleitoral com 48 partidos.
Boa parte da elite em Jacarta comenta com insistência que o grosso da população não tem a mais remota idéia do que se está votando.
O colégio eleitoral que escolherá o novo presidente tem 700 membros, mas apenas 462 cadeiras do DPR estão em jogo amanhã: os militares já têm suas 38 cadeiras. Estas eleições dão aos partidos as fichas para o cassino. Há duas semanas a oposição percebeu que apenas uma coalizão teria condições de bater o Golkar - ainda que não sua capacidade de comprar votos.
A coalizão une os partidos de Megawati, Amien Rais e do líder muçulmano Gus Dur. Dois desses três partidos têm forte base muçulmana, mas os três são seculares e pluralistas.
Isso significa que podem atrair boa parte dos cruciais 5 milhões de sino-indonésios que até há pouco controlavam 70% da economia. Os chineses estabelecidos na Indonésia retiraram nada menos que US$ 80 bilhões do país desde o início da crise econômica e financeira. O dinheiro só volta com um governo estável e com autoridade moral para garantir sua segurança. O PDI-P e os magnatas chineses já estão conversando a sério - como se comenta em Jacarta.


