Dili, 06 (AE-AP) - Em uma tentativa de conter a escalada de violência que tomou conta de Timor Leste e respondendo às críticas da comunidade internacional por não conter a situação, o presidente da Indonésia, B. J. Habibie, assinou nesta terça-feira (07, pelo horário local) decreto impondo a lei marcial no país, informou o porta-voz das Forças Armadas, general-de-brigada Sudrajat.
"Há muitos mortos, muitos refugiados e nada funciona lá (Dili)", disse o general em uma entrevista a uma emisssora de tevê local.
O decreto entra em vigor nesta terça-feira.
Não se podem prever os efeitos que a lei pode causar no território, uma vez que com sua entrada em vigor o Exército - que tem sido acusado de colaborar com os grupos pró-Jacarta - tem plena autoridade para deter qualquer pessoa suspeita de estar perturbando a ordem.
Dili, capital de Timor Leste, é uma cidade de terror, com milícias que atacam a tiros e a golpes de machete, denunciaram hoje várias pessoas que foram trasladadas do território indonésio para a Austrália.
Até a casa do bispo d. Carlos Ximenes Belo, Prêmio Nobel da Paz de 1996, foi atacada. O bispo teve de deixar Dili e pelo menos 30 refugiados timorenses que estavam na casa foram mortos ao tentar fugir.
"Vi uma crescente anarquia e pessoas aterrorizadas por todas as partes", afirmou a freira da Caritas Libby Rogerson ao chegar a Darwin, Austrália, procedente de Dili.
A Austrália começou hoje a retirar milhares de seus cidadãos e membros de organizações humanitárias e da ONU, ao mesmo tempo que criticava a Indonésia por não ter mantido a prometida lei e ordem em Timor Leste, onde a população votou há uma semana em massa (78,5%) num plebiscito pela independência do território.
Um total de 204 funcionários da Missão da ONU em Timor Leste (Unamet) deixaram ontem a ex-colônia portuguesa, invadida pela Indonésia em 1975. Ficaram apenas 129 dos quase mil funcionários que havia a princípio e estes deverão abandonar Dili em breve por causa dos crescentes ataques.
Mais de 170 pessoas teriam sido massacradas pelas milícias e pelo Exército indonésio nas últimas horas nas localidades de Liquisa, Maubara e Batugade, entre Dili e Atamboa, disse a porta-voz do Centro de Apoio a Timor Leste, Maria do Céu.
De acordo com a resistência timorense, citando uma mulher que fugiu de Dili com seu filho para a cidade de Atamboa, sudeste de Timor, centenas de cabeças presas a estacas podiam ser vistas ao longo de uma estrada que partia da capital.
Pelo menos 30 refugiados timorenses foram mortos ao tentar escapar de um ataque de milicianos pró-Jacarta contra a residência do bispo de Dili, Carlos Ximenes Belo, que foi escoltado pelas forças de segurança indonésias até a cidade de Baucau, 115 quilômetros a leste de Dili. Cerca de 5 mil pessoas estavam refugiadas na residência do bispo e na sede local da Cruz Vermelha quando ocorreu o ataque. De acordo com os poucos jornalistas que permanecem em Dili, a maioria dos agressores era formada por militares indonésios.
O governo português intensificou hoje sua pressão sobre a ONU para o envio de uma força de pacificação a Timor. O secretário-geral da organização, Kofi Annan, reuniu-se com os cinco membros de uma missão do Conselho de Segurança que partiria hoje mesmo para Jacarta a fim de discutir sobre a situação em Timor.
Mais contundente, a secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright disse nesta terça-feira que os Estados Unidos não descartam a possibilidade de uma intervenção americana em Timor Leste se a Indonésia não detiver a onda de violência.
"Os indonésios devem tomar conta da situação ou deixar que a comunidade internacional o faça. De uma forma ou de outra, esta situação não deve continuar", disse Albright.
Ainda hoje, o governo indonésio informou que libertará possivelmente quarta-feira o líder da resistência timorense, José Alexandre "Xanana" Gusmão, e permitirá que ele escolha para onde ir. A princípio, Jacarta queria que ele fosse para Dili, onde possivelmente seria assassinado pelos milicianos.

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