Índios protestam em carta a FHC e Sampaio
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sábado, 22 de abril de 2000
Por Deborah Kanarek 
São Paulo, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou há pouco ao Parque do Ibirapuera, para a Mostra do Redescobrimento Brasil + 500, onde assiste, neste momento, à apresentação de 40 índios xavante e mehinaku. Ele chegou sorridente e conversou rapidamente, entre outros, com o ministro da Cultura, Francisco Wefort; da Saúde, José Serra; e também com o governador de São Paulo, Mário Covas, e o vice, Geraldo Alckmin. Os índios das duas tribos que se apresentam entregaram uma carta a Fernando Henrique, também endereçada ao presidente de Portugal, Jorge Sampaio, que diz: "Estamos aqui com toda a verdade de nossa tradição. Sem rancor, sem raiva. Mas também não estamos comemorando nada. Esta não é a nossa comemoração. Apesar de toda distância e dificuldade, viemos porque temos o que falar com você. Estamos aqui para fazer um novo contato. Nossos antepassados, nossos avós aceitavam os presentes que vocês deixavam para enfeitiçar nosso povo. Pensamos que era uma atitude de amizade verdadeira. Acreditavam que, aceitando os presentes, vocês iam nos respeitar, que estaríamos protegidos. Mas essa história se repete. As frentes de atração continuam usando essa mesma tática para atrair e iludir nossos parentes, que nem sabem que o Brasil existe. Vivemos nesse lugar há muito tempo, muito antes de ele se chamar Brasil. Nossos ancestrais andavam aqui em liberdade... Hoje, vivemos cercados, em pequenos pedaços de terra. Para todo lado que andamos existem sinais daquilo que vocês chamam de progresso. Mesmo nossos territórios demarcados continuam sendo ameaçados pelos projetos de desenvolvimento que não levam em consideração nosso pensamento e nossa vida. Não entendemos o significado das palavras democracia e liberdade, que vocês tanto usam. Vocês dizem que gostam da terra. Isto não é verdade. Seus descendentes são numerosos, mas viraram a face para a verdade da criação. Mal sabem quem são. O povo brasileiro não conhece o povo indígena. Vocês não sabem quem somos, nunca entraram em nossas casas com respeito para compartilhar nossa sabedoria e amizade.
Agora estamos aqui para revelar a vocês a beleza e a força, o que há de mais profundo e verdadeiro na nossa tradição. O ritual que aprendemos com nossos ancestrais, na origem do tempo, a nossa herança.
Que essa revelação possa despertar o encontro com a verdadeira natureza que está dentro de vocês, que possa fortalecer o espírito criador contra o avanço do lado obscuro. Estamos aqui com nossa verdade e isso dói. Traz dúvidas e dor. Porque não sabemos se vocês vão ser capazes de enxergar o que estamos trazendo. Estamos fazendo um ritual de passagem para transformar este lugar num País onde nosso povo possa permanecer vivendo com sua identidade e patrimônio, dentro de sua tradição. Onde nossos filhos e os seus filhos possam conviver de uma forma mais justa e respeitosa, compartilhando o conhecimento e a sabedoria, construindo um jeito novo de viver." Assinado Povo Xavante Aldeia Eteñiritipá e Povo Mehinaku Aldeia Uiaipiuku


