Índios pintam-se para defender terra no MS
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domingo, 05 de dezembro de 1999
Por João Naves de Oliveira (especial para a AE) 
Campo Grande, 05 (AE) - Quase 400 índios estão pintados para a guerra e armados com flechas, prometendo expulsar os ocupantes de 36 fazendas localizadas em Dourados, no sul de Mato Grosso do Sul, distrito de Panambizinho. Os 1.240 hectares são área de conflito desde a década de 40, quando o governo Getúlio Vargas promoveu reforma agrária na região. Os 36 fazendeiros ameaçados juntaram 3 mil colonos para defender a área, afirmando que promoverão um banho de sangue se os índios invadirem as propriedades.
Esta segunda-feira é considerada o último de prazo para os fazendeiros brancos. Hoje à noite, os indígenas - todos caiovás-guaranis - estavam prontos para o ataque quando o coordenador do núcleo da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Dourados, Wilson Matos, chegou à aldeia com a notícia de que na terça-feira uma equipe do órgão de Brasília estará em Panambizinho resolvendo a questão. Os índios resolveram dar uma trégua até terça-feira, quando, sem nenhuma tolerância, tomarão as fazendas.
Wilson Matos afirmou que os indígenas estão fora de controle e transferiu para o governo federal a responsabilidade pelo possível confronto. Ele está tentando evitar derramamento de sangue e chegou a enviar para o protocolo da Presidência da República o resumo da carta elaborada durante o Conselho Intertribal, realizado dia 4 de outubro, pedindo a devolução das terras.
Tiros - Os 1.240 hectares de terras disputados judicialmente por índios e brancos foram declarados território indígena em 1995 pelo ex-ministro da Justiça Nelson Jobim. Sobre a disposição dos indígenas, o líder dos colonos, Dionésio Marcos da Rosa, disse que seus companheiros estão preparados para enfrentar a tiros qualquer investida indígena.
Rosa lembrou que os colonos têm direitos adquiridos desde a década de 40, quando Getúlio Vargas concedeu os títulos de propriedade para exploração econômica no distrito de Panambi, antiga Colônia Agrícola Nacional de Dourados.
Dionésio lamenta existir uma manobra por parte da Funai e chegou a enviar para o local agrimensores, disfarçados de funcionários do Instituto nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para demarcar a área em 92. Foi baseado nesse laudo que Nelson Jobim conseguiu decretar o lugar ocupado pelos colonos como terra indígena.
De um modo geral, a situação está muito tensa em Panambizinho. A madrugada de hoje foi considerada por índios e brancos a mais longa da história da região. Ninguém conseguiu dormir até o sol raiar, temendo o ataque indígena. Os índios temiam ser surpreendidos por colonos armados, com base em boatos sobre a intenção dos fazendeiros de atacar primeiro.


