Coroa Vermelha
Agência France Presse
Os primeiros habitantes do Brasil não conseguiram, em 500 anos de presença do homem branco no país, demonstrar que são maiores de idade, condição que reclamam esta semana em um congresso inédito que reúne mais de 2,5 mil índios.
Os representantes de mais de 100 tribos reclamaram ontem sua autonomia e criticaram a Igreja e o Governo, cujas tentativas de manipulação são visíveis às vésperas da celebração dos 500 anos do Brasil, segundo os líderes indígenas.
‘‘Acreditamos em nossa organização, em nossa autonomia’’, declarou José Adalberto, representante da tribo Macuxi, de Roraima (Norte), lembrando que os índios conseguiram arrecadar fora do Brasil mais de 300 mil dólares para a organização da conferência.
De acordo com o líder macuxi, os índios não são contrários à existência de organizações humanitárias que nos ajudem a defender seus direitos, mas para eles é necessário criar entidades em que os próprios índios lutem por seus interesses. Algumas já existem, como o Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib), que funciona como uma confederação que representa todos os povos indígenas.
Outra proposta foi a criação de um partido indígena. A participação das mais de 200 tribos brasileiras na vida política é modesta: 29 vereadores e dois prefeitos índios em um país de 165 milhões de habitantes.
Desde anteontem, os líderes indígenas discutem a substituição do obsoleto Estatuto do Índio, que data dos anos 60, pelo Estatuto das Sociedades Indígenas, que reconhece seus direitos como povo, lhes dá maior independência para entrar e sair de suas terras e reforça seus mecanismos de representação.
O Congresso brasileiro esteve estudando o texto do Estatuto das Sociedades Indígenas esses dias. Sua aprovação, segundo políticos de oposição, seria a demonstração de respeito que as comunidades indígenas esperam dos brancos neste ano 2000.
Segundo a Constituição de 1988, os índios são considerados menores, sem direito a voto ou passaporte. Uma minoria deles conseguiu estudar e foi considerada ‘‘adulta’’ e responsável por seus atos.
Para o líder macuxi, pelo menos 30% das tribos não estão representadas em nenhuma organização, por desinteresse ou falta de comunicação.
O líder yanomami Davi Kopenawa, por exemplo, cuja tribo vive na fronteira com a Venezuela e teve seu primeiro contato com os brancos há 30 anos, não sabia, até chegar a Porto Seguro, que o país estava celebrando os 500 anos de seu descobrimento.Representantes de mais de 100 tribos, que participam de conferência indígena reclamam sua autonomia e criticam Igreja e Governo
Agência France PresseINDEPENDÊNCIAÍndio xucuru participa da conferência: líderes querem a substituição do obsoleto Estatuto do Índio, que data dos anos 60

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