Um boato sobre a extinção da Fundação Nacional do Índio (Funai) levou ontem cerca de 80 índios a invadir o prédio da autarquia, em Brasília. Uma radiopatrulha apareceu no local três horas após a ocupação, mas a polícia não pediu reforço. Mais de 420 servidores não puderam entrar na Funai pela manhã. Por funcionar no mesmo prédio, a sede do Serviço de Limpeza Urbana de Brasília (SLU) também ficou interditada.
Os índios só abriram as portas do prédio depois que o presidente interino da Funai, Roque Laraia, no início da tarde, garantiu que o órgão não será extinto e que o presidente definitivo será nomeado até o final da próxima semana. O último presidente da Funai, Carlos Frederico Marés, saiu do cargo em abril criticando o governo. Nomeado como presidente interino, o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Antônio Anastasia, se recusou a entrar na sede da fundação quando soube que mais de 100 índios Karajá o aguardavam na garagem do prédio.
Caciques de várias tribos, incluindo Xavante, Karajá e Funiô, também querem discutir com o governo as mudanças no Estatuto do Índio, que está tramitando no Congresso. Algumas reuniões sobre o Estatuto têm sido realizadas em Luziânia (GO), mas os índios se recusam a debater o tema com parlamentares que, segundo eles, têm interesse em mineração e exploração de madeira. Até o senador Romero Jucá, do PFL de Roraima, foi convidado para os debates.
A invasão do prédio da Funai expôs as péssimas condições de funcionamento de todo o órgão, que não tem recebido verbas orçamentárias para tocar suas ações. Algumas salas do prédio estão interditadas por falta de reforma e os azulejos dos banheiros estão caindo. No meio da sujeira e do abandono do prédio ondem passam os dias procurando ajuda oficial, os índios reclamam da falta de assistência do governo.
Laraia disse que a votação do Orçamento Geral da União
para 2000 atrasou e o dinheiro não saiu. A expectativa dentro da Funai é que o presidente Fernando Henrique Cardoso sancione a lei do orçamento nos próximos dias.
Os índios ocuparam o prédio às 6 horas e só abriram a portaria principal por volta de 14 horas. A única carga que entrou no prédio foi um calhamaço de exemplares do Diário Oficial da União, que logo foi devolvido à distribuidora, pois os índios não sabiam onde guardar. Com bordunas e flechas nas mãos, os caciques chegaram a ameaçar servidores da Funai e do SLU que tentavam entrar no prédio.
Os índios Funiô, Xavante e Karajá entoaram cânticos de guerra na portaria principal. Entre os Funiô que invadiram o prédio estavam os 12 integrantes do grupo musical Banda Funiô, que toca reggae, rock e soul. O grupo já lançou CD. Máquina fotográfica em punho, o assessor de imprensa dos Funiô, Tafkeá Funiô, namorado da vocalista da Banda, Kleklenyshô Funiô, disse que os índios não aceitam mudanças no Estatuto da Terra. ‘‘Se mudarem o Estatuto vão invadir nossas terras’’.
À tarde, os índios redigiram uma pauta de reivindicações com três itens: um novo presidente para a Funai, a volta do sistema de saúde indígena para a Funai (no ano passado houve a transferência para a Funasa), e mais respeito do governo na hora de discutir o Estatuto.

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