Índios fazem servidores reféns até visita de ministro
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segunda-feira, 23 de agosto de 1999
Por João Naves de Oliveira 
Campo Grande, 24 (AE) - Os índios Guaranis-Kaiowas mantêm reféns os funcionários do cerimonial do governo do Estado do Mato Grosso do Sul, Sandro Fantini, Sebastião Carlos Flores Farias e Carlos Roberto Faustino. Os três estão presos em uma oca da Aldeia Panambizinho, a 20 quilômetros do centro de Dourados, na região sul do Estado, desde o início da noite de ontem (23). Eles foram ao local avisar os índios sobre o cancelamento da visita do ministro da Justiça, José Carlos Dias, programada para hoje. Com a visita, o ministro pretendia resolver conflito de terra entre os índios e 38 produtores rurais brancos, que estão em uma área de 1.180 hectares, declarada terra indígena pela Funai (Fundação Nacional do Índio)
desde de 1992.
Os agricultores não deixam o lugar sem a indenização das benfeitorias que estimam custar R$ 5 milhões, e a questão se arrasta desde aquela época, com sucessivos conflitos entre as duas partes. São 60 famílias indígenas que vivem em 60 hectares, vizinhos à gleba palco do atrito, que se acham comprimidas na aldeia e precisam de mais espaço para sobreviverem. A miséria em que vive a tribo tem provocado sucessivos suicídios, entre eles o de um dos filhos do cacique Nélson Concienza, que se enforcou em uma árvore dentro da aldeia no início deste ano. Foi a terceira ocorrência do gênero registrada nos últimos seis meses na aldeia Panambizinho.
Na semana passada, com a confirmação da visita de Dias, os Kaiowas imaginavam uma solução para o caso. No final da tarde de ontem (23), assessores de José Carlos Dias informaram ao cerimonial do governo do Estado sobre o cancelamento da visita. Os servidores foram até a aldeia comunicar o fato e acabaram se transformando em reféns.
Os índios garantem que somente libertarão os três quando o ministro ou outra autoridade que possa resolver o conflito estiver na aldeia. Na região de Dourados vivem cerca de 30 mil índios. Quase dois mil deles já estão reforçando o grupo revoltado para garantir a continuidade das ações que visam a recuperação da terra perdida para os brancos.
Pintados para guerra, munidos com arco, flechas e lanças, os índios se movimentam de um lado a outro da aldeia numa demonstração de que estão prontos para a luta. Os agricultores se dizem também preparados, podendo entrar em ação no momento em que os índios resolverem invadir suas casas, conforme estão prometendo desde o início da semana passada.
Os caciques reafirmaram a disposição de tomar as moradias dos brancos que estão em terra indígenas da aldeia até o próximo dia 30.
Em abril passado, outro grupo composto por 400 Kaiowas ocupou a Fazenda Brasília Sul, localizada no município de Juty, na mesma região e permanecem no local até agora. Em Paranhos, na divisa com o Paraguai, 700 Kaiowas estão ocupando quatro chácaras e uma fazenda, desde de abril de 97. Existem outros conflitos entre brancos e índios por questões agrárias em Maracaju, Antonio João e Coronel Sapucaia.
Em junho deste ano, a Funai baixou portaria criando um grupo permanente de trabalho, para identificar e regularizar terras indígenas no Estado. O grupo é composto por representantes de vários segmentos da sociedade, porém não conta com qualquer representatividade dos produtores rurais.
A Federação da Agricultura de Mato Grosso do Sul encaminhou esta semana um manifesto a palamentares protestando contra a ausência da categoria nesse tipo de trabalho.


