Índios fazem protesto na Funai contra falta de investimento na saúde
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quinta-feira, 10 de junho de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 11 (AE) - O cacique Raoni puxou hoje as orelhas do presidente da Funai, Márcio Lacerda, e da procuradora da República Raquel Elias Ferreira Dodge, em protesto pela falta de investimentos do governo na saúde indígena. Raoni liderou um protesto dos índios kaiapó, terena e pataxó, no auditório da Fundação Nacional do Índio (Funai). As lideranças destas tribos, pintadas com cores de guerra e com bordunas nas mãos, reclamaram que não estão tendo assistência médica adequada e estão receosas com a transferência da área de saúde da Funai para o Ministério da Saúde.
"Escuta. Escuta eu e não seja fraco. Defende o índio", disse Raoni em karajá ao presidente da Funai e à procuradora, ao mesmo tempo em que puxava a orelha dos dois. O sobrinho de Raoni
Cacique Megaron, fez a tradução simultânea para o português e a platéia de índios de várias tribos, indigenistas e autoridades da Funai pôde entender do que se tratava. O protesto teve momentos tensos. O cacique sugeriu que poderia pedir aos índios que "pegassem" as autoridades presentes, mas que não queria violência. Raoni disse que o governo federal começou a fazer as mudanças na área de saúde sem ouvir as principais lideranças indígenas e afirmou que pretende ter um encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso, para reclamar.
O cacique terena Mzaque afirmou que os recursos da área de saúde não estão chegando para os índios que vivem no Pantanal e que há uma "grande dificuldade" para remoção de pacientes. Os caciques acreditam que a transferência do atendimento para o Sistema Único de Saúde é uma forma de levar todos os índios para as extensas filas dos hospitais públicos. Raoni ficou tão irritado durante o encontro no auditório que se recusou a pegar na mão do indigenista Márcio Santilli, ex-presidente da Funai identificado com a causa dos índios. Raoni sugeriu que Santilli nada está fazendo para ajudar os índios.
O presidente da Funai disse que os índios "estão certos" em puxar as orelhas das autoridades do governo, inclusive as dele. "É preciso melhorar o atendimento de saúde para a comunidade indígena", reconheceu Márcio Lacerda. Segundo ele, o governo federal cortou 63% do orçamento da Funai para a área indígena. De R$ 10 milhões, a expectativa é de que sejam repassados este ano apenas R$ 3 milhões. O Ministério da Saúde, disse Lacerda, tem orçamento maior, mas também não está repassando o dinheiro. "Não está definida a aplicação", disse.
A procuradora Raquel Elias disse que não entendeu o puxão de orelhas que levou do cacique Raoni. "Eu apenas estou defendendo o que está escrito na Constituição", disse. A procuradora, segundo as lideranças indígenas, foi quem primeiro assinou documentos defendendo que o Ministério da Saúde cuide do gerenciamento da saúde indígena.
O diretor de Operações da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Ubiratan Pedrosa, disse hoje que nas próximas semanas o órgão começa a operar o atendimento de saúde na área indígena, a partir do momento em que o presidente Fernando Henrique Cardoso assinar decreto regulamentando o assunto. Segundo Ubiratan, serão disponibilizados R$ 52 milhões ainda este ano para saúde indígena. Enquanto o decreto não é assinado, disse ele, a Funasa já iniciou o atendimento dos índios, com recursos das coordenações regionais nos Estados.


