Índios enfrentam dificuldades para concluir ensino superior
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terça-feira, 10 de janeiro de 2006
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Criadas há quatro anos por meio de uma lei estadual, as vagas extras para estudantes indígenas nas universidades estaduais do Paraná ainda apresentam resultados tímidos. Os índios que tiveram acesso ao ensino superior do Estado graças à medida apontam dificuldades para continuar frequentando as aulas: econômicas, de adaptação e de aprendizagem.
No mês que vem será realizada em Ponta Grossa a quinta edição do vestibular indígena (ao todo, foram 136 inscritos), que vai destinar três vagas para índios em cada universidade estadual paranaense: Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Universidade Estadual do Oeste (Unioeste) e Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Desde o último concurso, são ofertadas cinco vagas na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Não se trata de sistema de cotas: no momento da inscrição para o vestibular, os indígenas indicam em qual universidade gostariam de estudar. Os primeiros colocados em cada instituição selecionam o curso de sua preferência, para o qual é criada vaga extra ou mais de uma conforme as escolhas dos estudantes indígenas.
Foi dessa forma que Marilene Bandeira, 25 anos, índia caingangue de uma reserva em Cândido de Abreu (191 km ao sul de Apucarana), entrou em 2002 no curso de Pedagogia da UEPG, no qual recentemente se formou. Os anos na universidade não foram fáceis. ''No primeiro ano, deixaram de pagar a bolsa (hoje, no valor de R$ 270 por mês) por alguns meses. Uma professora nos ajudou. Outra dificuldade que sentimos foi a falta de apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), que não tem sede na região de Ponta Grossa'', lamenta Marilene, mãe do pequeno Gojsi, de quatro anos.
A ausência de reservas indígenas mais próximas faz com que a UEPG ostente um dos maiores índices de desistência de estudantes índios. Dos 12 indígenas que ingressaram na universidade desde 2002, ano do primeiro vestibular para índios, sete já abandonaram os cursos que escolheram. Na UEM e na Unicentro, por exemplo, a desistência é de apenas 25%.
Devido à educação básica deficiente, o índice de repetência entre os indígenas é alto em todas as universidades estaduais. ''Na UEPG, esse índice chega a 90%'', afirma José Carlos Borsato, representante na UEPG da Comissão Universidade para os Índios (Cuia), órgão responsável por avaliar o vestibular indígena e acompanhar os estudantes beneficiados. ''Este desempenho tem várias razões: culturais, falta de adaptação, de uma base de estudos''.
A professora Déa Maria Ferreira Silveira, integrante da Cuia na Unicentro, explica que alguns indígenas desistiram de estudar ou reprovam porque escolheram cursos muito difíceis, como Medicina e Ciências da Computação. ''No Ensino Médio, muitos alunos enfrentaram o problema da língua. Eles estudaram o Ensino Fundamental na língua nativa e sentiram dificuldades quando depois frequentaram aulas com conteúdos ministrados em português. Isso gerava um atraso'', descreve a professora.
O marido de Marilene cursa Agronomia na UEPG e repetiu de ano. ''Ele sempre diz que tem dificuldade de acompanhar. Tem muita coisa considerada básica que ele nunca estudou antes'', diz Marilene. Cristiane de Paula Carneiro, 23 anos, indígena que em 2005 iniciou o curso de Enfermagem na UEPG, não passou de ano. ''Tive dificuldades de aprendizagem e financeiras. O valor da bolsa é pequeno e não tive dinheiro para comprar apostilas'', justifica a estudante.
Marilene Bandeira,
25 anos, com o filho Gojsi, concluiu pedagogia na Universidade Estadual de Ponta Grossa: No primeiro ano, deixaram de pagar a bolsa por alguns
meses. Uma professora nos ajudou. Outra dificuldade que sentimos foi a falta de apoio da Funai, que não tem sede na região de Ponta Grossa


