Índios, em guerra, exigem terra de volta
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quarta-feira, 22 de abril de 1998
Agência Folha 
Dezenas de índios guarani-caiovás, brasileiros e paraguaios, estão invadindo pequenas fazendas em Paranhos, no extremo sul do Mato Grosso do Sul, na divisa com o Paraguai. Eles consideram a área terra indígena desde novembro, quando a Fundação Nacional do Índio (Funai) fez a medição e constatou que quase quatro mil hectares pertencem aos indígenas. No dia 19, os índios começaram as ocupações e ontem tomaram mais quatro fazendas. Até ontem foram ocupadas oito fazendas.
O prefeito de Paranhos, Heliomar Klabunde (PSDB), disse que o clima é de guerra. Os índios chegam em grupos de 50 a cem homens, armados com flechas, bordunas e lanças e expulsam as famílias de suas casas. Quem resiste, acaba ficando preso em casa. O administrador regional da Funai, responsável pela região, José Milton Bueno, esteve anteontem no local e resolveu montar uma estratégia para negociar pacificamente com os invasores, pois qualquer aproximação de policiais pode colocar em risco a vida das famílias.
A região foi ocupada pelos brancos, a partir de 1870, quando terminou a Guerra do Paraguai, e o governo federal resolveu começar o Projeto Rápido, doando glebas de 40 a 50 hectares para famílias brasileiras ou de imigrantes, na divisa com o Paraguai, garantindo a ocupação imediata da fronteira.
Há quase 50 anos os índios viviam na região chamada Taguaperi, onde estão ocorrendo as invasões, vivendo da erva mate, planta nativa, vendida para a Companhia Mate Laranjeira. Alguns caciques afirmam que muitas famílias indígenas se consideravam escravas da empresa, sendo obrigadas a cumprir cotas de erva mate.
Há dois anos os índios reivindicam a área, afirmando ser donos de mais dois mil hectares. Entretanto, no levantamento da Funai, a área dos guarani-caiovás é o dobro, o que pode ter incentivado as ocupações. Antes das ocupações, iniciadas no Dia do Índio, aconteceu um ritual religioso de três dias. Segundo o delegado regional da Polícia Federal, em Naviraí, Sabino Alexandre, a queixa das invasões ainda não foi formalizada na Polícia Federal.
A ocupação das terras pelos índios no extremo sul do Mato Grosso do Sul não é invasão, avalia o antropólogo Rubem Thomás de Almeida. As terras, 3.950 hectares, pertencem aos guarani, afirma Almeida. Ele integra a comissão da Funai que deve assegurar a devolução da área perdida pelos índios.
A burocracia e lentidão da Funai são os responsáveis pela ocupação da área, diz Almeida, que esteve na região na semana passada. O antropólogo tentou convencer os índios a esperar um pouco mais pela decisão final da Funai, mas eles resistiram. Como a Funai havia acenado com uma solução rápida, eles não plantaram roças e, além disso, abateram todos os porcos e galinhas à espera da mudança. Assim, ficaram sem alimentos e estão sendo pressionados por índios que já viviam em Pirajuí a se mudarem de lá. A alta densidade populacional das terras guaranis é uma das razões que tem levado ao suicídio especialmente índios jovens dessa etnia, avalia o antropólogo.


