Índios e ONGs invadem o palco e roubam a cena na festa dos 500 Anos
com 2 mil representantes de 188 nações na Conferência dos Povos Indígenas. Mas há também ações coordenadas longe do "teatro de guerra": nos últimos dias o Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiu fazendas e prédios oficiais em vários Estados e chegou a fazer seis reféns no Incra em Salvador. Em meio às marchas, bloqueios, confrontos e protestos, os manifestantes descobriram um alvo perfeito para demonstrar sua aversão às comemorações oficiais: os grandes relógios que a Rede Globo instalou em várias capitais para fazer a contagem regressiva até o dia do "descobrimento". Foram flechados, apedrejados e enlameados, sob a alegação de que representam também os interesses econômicos em torno da "marca 500 Anos". Mais longe, no outro palco das comemorações, grupos políticos portugueses reunidos em torno do Bloco de Esquerda preparam uma série de eventos com debates para abordar o genocídio dos nativos, a escravidão "e outros aspectos que não podem ser apagados da História em meio a uma festa faraônica e telenovelesca", segundo o deputado português Francisco Louçã. "As comemorações do ministro (Rafael) Greca (do Turismo) e do governo português são despropositadas e precisam de uma visão alternativa." Na Grã-Bretanha, o Survival for Tribal Peoples entregou hoje na embaixada brasileira um documento com 10 mil assinaturas em apoio à causa indígena. "A petição em favor dos indígenas foi a iniciativa mais apropriada que nossa entidade encontrou para marcar o quinto centenário da descoberta do Brasil", disse em Paris o diretor Jean-Patrick Razon. Mas os estrangeiros também prometem dar apoio de perto. "Organizações européias já nos contataram para participar aqui dos protestos, e há também um grupo australiano vindo para cá", relata Lourdes, do Comitê Brasil Outros 500. Com 100 mil manifestantes ou bem menos que isso, o fato é que a celebração dos índios e ONGs já faz barulho suficiente para pôr em xeque a agenda do cerimonial. A programação definitiva de Fernando Henrique (se é que há) ainda não foi divulgada. Sabe-se apenas que, no dia 22, ele e o presidente português, Jorge Sampaio, chegam a Porto Seguro por volta das 11h30 e devem seguir de ônibus até o centro histórico da cidade. Daí por diante, ninguém sabe de que banda virá a música. (colaborou Napoleão Sabóia)Por David Moisés São Paulo, 18 (AE) - Índios e ONGs já roubaram a cena e agora prometem transformar a festa oficial dos 500 Anos num protesto monumental. "Não temos dúvida de que estaremos em Porto Seguro no dia 22, com 100 mil pessoas para celebrar cinco séculos de resistência", entusiasma-se Maria de Lourdes Nunes, no quartel-general do Comitê Brasil Outros 500, em Salvador. E a disposição cresce na mesma medida em que o presidente Fernando Henrique Cardoso vai reduzindo sua agenda nas festividades. O Planalto já cortou sua visita à terra dos Pataxós, em Cabrália, e tem sérios temores quanto à presença dele em Porto Seguro. Sincronizando a ação de 35 entidades que representam desde povos indígenas até sindicalistas e líderes comunitários de esquerda, passando por sem-terra e ambientalistas, o Comitê Brasil Outros 500 quer tomar o palco e inverter o roteiro. "Não podemos ser o único país do mundo a celebrar a dominação em lugar da resistência de seu povo", diz Lourdes, membro da coordenação-executiva. "Não vamos comemorar o genocídio e a exclusão." A marcha dos 3 mil sem-terra ontem (17) em Porto Seguro, para lembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás e a violência no campo, foi o primeiro grande evento extra-oficial a agitar a região. O segundo começou hoje, na área pataxó de Coroa Vermelha





