Índios deixam o Nordeste para trabalhar no Mato Grosso do Sul
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de junho de 1998
Agência Folha 
Índios retirantes, 12 famílias de aticuns - entre 60 e 80 pessoas - fugiram da seca no sertão de Pernambuco para trabalhar a 3.400 km da aldeia natal, como hóspedes do povo terena, em Mato Grosso do Sul. Eles estão numa terra pouco fértil, em Nioaque (185 km a sudoeste de Campo Grande). Os aticuns - que os terenas logo batizaram de terra-seca - começaram a chegar há cerca de 13 anos.
O primeiro do grupo a deixar a aldeia no município pernambucano de Floresta (500 km a oeste de Recife) foi Aliano José Vicente, 48. Ele ficou sabendo, vagamente, que um primo tinha vindo para o sul tentar um lugar mais chovedouro, como ele diz.
Primeiro Vicente foi para o Paraná, onde trabalhou como bóia-fria, mas não gostou. Tinha muita passação de veneno na lavoura, afirma. Vicente voltou a Pernambuco, trabalhou mais três anos na terra da Serra de Umã, onde fica parte dos 16.290 hectares da Área Indígena Aticum (minha aldeia fica no alto, e lá embaixo o sertão brabo, narra Vicente), mas não conseguiu vencer a seca.
A vivência no Nordeste é sofrida, diz. O aticum foi então ao Mato Grosso do Sul conhecer a área indígena de Nioaque, hoje com 3.029 hectares e 1.112 terenas. Conversou com as lideranças e pediu um lugar para ficar. Os terenas colocaram o assunto em discussão numa assembléia. Vicente foi autorizado a se instalar na área dos terenas um mês depois. Aos poucos, foi trazendo seus 11 filhos e a mulher, também aticum, Luzia Conceição Vicente, 51 anos. Aos nordestinos, foi destinado um canto da aldeia Água Branca.
O pedaço de mato, que os aticuns abriram a golpes de machado, hoje tem nome, aldeia Cachoeirinha. A agricultura logo se revelou um novo desafio, que está sendo enfrentado com mais sucesso do que no Nordeste. A terra aqui é muito fraca, mas é melhor do que a melhor terra de lá, disse Vicente, 48, que hoje conta 3 mil covas de cana-de-açúcar, um alqueire de milho, ramas de mandioca e batata-doce e 20 vacas (duas leiteiras).
É bem mais do que o jumento que ele usava para transportar água no Nordeste e os dois cabritos que criava. No sertão, diz o aticum, era plantar e perder, pois faltava água até para beber. Como a terra de Nioaque não é ideal, de tempos em tempos seus filhos também saem para procurar sorte melhor, mas até hoje têm voltado sempre. José, 27, já pegou malária em Rondônia e retornou há poucos dias para acompanhar a gravidez da mulher.
Área Indígena Aticum, em Floresta (PE), de onde saíram os índios que hoje vivem em Mato Grosso do Sul, está entre as áreas consideradas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) mais atingidas pela seca neste ano. O administrador regional da Funai em Pernambuco, José Osório Galvão de Oliveira, 38 anos, disse que há oito meses o governo federal distribui cestas básicas na aldeia, mas em número insuficiente.


