Boa Vista - A retirada dos não-índios da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, deverá ser pacífica. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que por dez votos a um manteve ontem a demarcação contínua da área de 1,7 milhão de hectares, os índios prometeram que vão aguardar a retirada antes de ocupar as fazendas. ''Vamos chamar todo mundo para conversar e aguardar o cumprimento da decisão'', disse o coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Dionito José de Sousa.
Os índios comemoraram a vitória com a dança do parixara, na sede do CIR, em Boa Vista, e na vila Surumu. ''Em nenhum momento acreditamos que o resultado seria diferente. Conseguimos trazer os votos para nosso povo e estamos satisfeitos com a decisão do STF'', afirmou Dionito.
Para ele, os dez ministros que votaram a favor da demarcação contínua reconheceram os direitos dos índios garantidos na Constituição de 88. ''A lei tardou, mas não falhou'', comemorou.
O coordenador observou que a partir de agora pretende trabalhar em parceria com o poder público para desenvolver a região. ''A nossa única exigência é que respeitem a nossa cultura'', comentou.
Sem opção, o líder arrozeiro Paulo César Quartiero disse que não empreenderá resistência à ordem de saída, que será imediata, mas espera que o ministro Carlos Ayres Brito, relator da ação, estabeleça prazo até maio para a conclusão da colheita, retirada de maquinários e transferência do gado.
Quartiero afirmou não ter como calcular os prejuízos caso a retirada seja feita em menor prazo. Segundo ele, somente nas suas fazendas, Providência e Depósito, há 1.500 hectares de arroz para colher. Por outro lado, os produtores teriam 9 mil cabeças de gado dentro da reserva.
O líder arrozeiro criticou duramente a decisão do STF. ''O julgamento constatou o ódio e o rancor da Suprema Corte contra os produtores de alimentos do Brasil e especialmente de Roraima. Quase uma vingança, mas vamos continuar trabalhando''.
Conflito
Na reserva vivem cerca de 18 mil indígenas de cinco etnias diferentes. Localizada nas fronteiras com a Venezuela e a Guiana, a área foi homologada em 2005 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A área virou foco de conflito e tensão envolvendo governo federal, governo estadual, igreja, indígenas e ONGs.

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