Paulo San Martin
Especial para a Folha
Cerca de cem líderes indígenas, representantes de todas as etnias que vivem no Mato Grosso do Sul, divulgaram na semana passada documento no qual estabelecem ‘‘uma trégua’’, até o início de dezembro, no conflito que envolve índios guaranis e kaiowás pela posse de uma área ocupada por colonos brancos no Distrito de Panambi, 30 quilômetros de Dourados. O documento, intitulado ‘‘Termo de Compromisso Indígena’’, é assinado por lideranças das etnias kaiowá, terena, guarani, guató, kadiwéu, kiniknau e ofaié-xavante.
A ‘‘trégua’’ proposta pelos indígenas é quase um eufemismo. Na verdade, o documento estabelece um ultimato até o dia 5 de dezembro para que o Ministério da Justiça resolva o conflito na região. Depois disso, os líderes prometem levar mais de 20 mil índios de todas as aldeias do Mato Grosso do Sul para invadir as áreas dos colonos e ‘‘iniciar a autodemarcação’’ de suas terras.
Se isso acontecer, a violência será inevitável. Como a Folha de Londrina/Folha do Paraná revelou no mês passado, os colonos estão dispostos a reagir com armas para defender suas propriedades. Ontem, o presidente da Comissão dos Colonos de Panambi, Dionésio Marques Rosa, reafirmou por telefone à Folha a disposição de alguns proprietários de ‘‘só saírem mortos’’ de suas terras. ‘‘Precisamos evitar o confronto a qualquer custo’’, disse.
Os colonos brancos e índios disputam a posse de uma área de 1.180 hectares em Panambi. O distrito, colonizado pelo governo Getúlio Vargas na década de 40, tem mais de 300 pequenos e médios proprietários rurais e é uma das primeiras experiências bem-sucedidas de reforma agrária no Brasil. Parte destas terras é reivindicada há muito pelos índios guaranis e kaiowás que vivem na Aldeia Panambizinho, localizada dentro do distrito.
Índios e colonos sempre tiveram convivência pacífica na região. Mas o conflito começou em 1995, quando o então ministro da Justiça, Nelsom Jobim, assinou portaria reconhecendo que parte das terras ocupadas pelos colonos é área indígena. Para isso, ele se baseou em estudos técnicos realizados por antropólogos da Funai. A portaria instigou os índios, mas não definiu o destino dos colonos. ‘‘Alguns de nós estão aqui há quase 50 anos, já tiveram filhos e netos nestas terras. Nossos títulos de propriedade foram emitidos pelo próprio governo federal. Não é justo que agora simplesmente nos tirem daqui’’, denuncia Marques Rosa.Lideranças deram ‘‘trégua’’ até 5 de dezembro para que o conflito entre indígenas e colonos no Mato Grosso do Sul seja resolvido
Arquivo FolhaTRAGÉDIAA disputa de terras no Distrito de Panambi, em Dourados, já provocou morte de vários índios

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