Índios ameaçam explodir Usina do Apucaraninha
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segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Índios caingangues da reserva de Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), estão acampados em uma usina hidrelétrica da Copel e ameaçam atear fogo no local caso a companhia não entre num acordo sobre a indenização por danos ambientais que deve aos indígenas. Três funcionários estão retidos na usina. Uma reunião foi marcada para hoje, às 10h30, em busca de solução para o impasse.
O protesto começou no último domingo, por volta das 22 horas, quando dois operadores da usina foram rendidos durante a troca de turnos. Ontem pela manhã, um terceiro operador foi chamado ao local para levar alimentos e também ficou retido. Embora estejam impedidos de deixar a usina, os três funcionários afirmaram que a ação dos índios está sendo pacífica.
''A gente sabia que a qualquer momento isso ia acontecer. Já é a terceira vez nos últimos anos. Desde 2002, quando começaram a discutir a questão da indenização, nós não trabalhamos mais sossegados'', relatou o operador José Carlos Feitosa, funcionário da Copel há 19 anos. O funcionamento da usina, que tem capacidade para gerar 10 megawatts de energia, foi mantido.
Ontem à tarde, dois indígenas guardavam a porta da sala de máquinas com pedaços de paus, mas não impediram o acesso dos trabalhadores, nem da reportagem. Junto à mesma entrada, foram deixados dois barris com cerca de 100 litros de óleo diesel. ''O pessoal ameaça usar o líquido inflamável para explodir a usina. Nosso povo está bastante cansado de aguardar por uma decisão e já está se voltando até contra as próprias lideranças'', disse Aparecido Marcolino, representante do Conselho Indígena.
A usina foi construída em 1949, mas foi nesta década que as discussões sobre a indenização pelos danos ambientais provocados pela Pequena Central Hidrelétrica (PCH) se intensificaram. Segundo o cacique da reserva Apucaraninha, Jucelino Vergílio, o valor da indenização chegou a ser calculado em R$ 29 milhões, mas foi reduzido pela Copel a R$ 13 milhões e, agora, para R$ 7 milhões. ''Já fomos a inúmeras reuniões, mas nunca há acordo. Estamos sendo cobrados pelo povo. E quando eles ficavam revoltados, ninguém segura'', alertou.
O cacique explicou que 20% do dinheiro da indenização seriam partilhados entre as famílias e o restante aplicado em projetos de melhoria da aldeia, como aquisição de maquinário agrícola. ''Estamos numa fase ruim. A taquara (principal mão-de-obra do artesanato caingangue) acabou e o emprego está difícil. Precisamos investir na agricultura'', argumentou. Cerca de 1,5 mil índios vivem na aldeia.
A assessoria de imprensa da Copel em Curitiba informou que a companhia foi ''pega de surpresa'' pela manifestação, já que as partes aguardam pronunciamento do Ministério Público Federal (MPF), em Brasília, sobre o valor da indenização. Ainda de acordo com a assessoria, a Copel está disposta a negociar e enviou um representante da capital para a reunião de hoje, em Londrina, da qual o MPF e representantes indígenas devem participar.
A celeuma ocorre poucos dias após a Copel anunciar que irá construir, junto com a Eletrosul, a Usina Hidrelétrica Mauá, no Rio Tibagi (entre Ortigueira e Telêmaco Borba). O projeto revoltou ambientalistas, pesquisadores e povos caingangues, que têm cinco aldeias na Bacia do Tibagi. Os índios prometem novos protestos contra a usina.


