Paulo San Martin
De Dourados
Especial para a Folha
Oitenta e cinco dos 300 índios guaranis e kaiowás que invadiram a Fazenda São Sebastião, no município de Sete Quedas, a 456 quilômetros de Campo Grande, no extremo sul do Mato Grosso do Sul, ameaçam se suicidar em massa para forçar o Ministério da Justiça e a Funai (Fundação Nacional do ândio) a demarcar suas terras.
Um documento escrito a mão e assinado pelos 85 índios deverá ser entregue nos próximos dias à Funai, ao governo do Estado e à presidência da República. A Folha teve acesso ao documento. Trata-se de um relato quase desesperado, dirigido às autoridades. No meio do texto, os índios afirmam: ‘‘Se nós não receber apoio dos senhores, todos nós vamos nos suicidar aqui (sic)’’.
A Funai e o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), seção do Mato Grosso do Sul, afirmam que não há razão para desconfiar das reais intenções suicidas dos índios. A Funai ainda não recebeu o documento e desconhece o seu conteúdo, mas está assustada com a prática do suicídio coletivo iniciada entre os guaranis e kaiowás do Mato Grosso do Sul há duas semanas.
Na semana passada, cinco índios com idades entre 12 e 20 anos beberam veneno na aldeia de Panambizinho, no Distrito de Panambi, na região de Dourados, a 220 quilômetros de Campo Grande. Três morreram, um continua internado em estado de coma na UTI do Hospital Evangélico e o outro foi salvo. No dia seguinte, índios adultos conseguiram frustrar uma nova tentativa se suicídio de cinco adolescentes.
Anteontem, o líder da aldeia, Nelson Consciença, impediu outra ameaça de suicídio coletivo. Ele viu um grupo de cinco jovens da aldeia entrando no mato com garrafas e chamou mais de dez índios, que os cercaram. Algumas garrafas continham pinga e outras agrotóxicos. ‘‘Eles iam se embriagar e depois se envenenar’’, diz Cosciença.
Uma equipe da Polícia Federal chegou ontem a Panambizinho e mantém plantão permanente na aldeia para tentar impedir novas tentativas de suicídio coletivo. ‘‘Nossa experiência mostra que quando um índio se mata, outros tentam imitá-lo. Agora, a questão é de suicídio coletivo entre adolescentes. Isso precisa ser evitado a qualquer custo’’, diz o delegado da Polícia Federal de Dourados, Delci Carlos Teixeira.
O índio terena Wilson Matos, chefe do Núcleo de Apoio ao Índio de Dourados, um órgão ligado diretamente à presidência da Funai em Brasília, diz que um levantamento sumário feito nos três últimos dias na aldeia Panambizinho, onde vivem 180 índios, detectou uma pré-disposição ao suicídio em quinze jovens indígenas, com idades entre 13 e 19 anos. ‘‘Iniciamos um trabalho de emergência para tentar alterar esta tendência’’, afirma.
O suicídio de índios guaranis e kaiowás começou a ser registrado no Mato Grosso do Sul no final da década de 80, mas assumiu proporções alarmantes em 95, quando 86 índios se suicidaram. Nos anos seguintes, os casos continuaram somando as dezenas e mobilizaram a opinião pública internacional. Só neste ano, dezessete índios já se suicidaram.
No mês passado, a Folha revelou com exclusividade que o Ministério Público Federal determinou a investigação de prováveis casos de homicídios disfarçados entre os suicídios. Em todos estes casos, a questão central é a terra. ‘‘Os índios se suicidam porque não têm como sobreviver física e espiritualmente nestes verdadeiros campos de concentração em que se transformaram as reservas indígenas do Mato Grosso do Sul. É urgente a descompressão destas áreas com a demarcação das terras indígenas’’, afirma o coordenador regional do Cimi no Estado, Nereu Scheneider.Grupo de guaranis e kaiowás que ocupa fazenda no município de Sete Quedas exige demarcação de terras e fala em suicídio em massa
Arquivo FolhaLUTA INGLÓRIAConflito entre colonos brancos e índios guaranis e kaiowás no Mato Grosso do Sul desabriga famílias como a da foto

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