Porto Seguro, BA, 24 (AE) - O índio José Carlos Araújo Ferreira, de 20 anos, um dos feridos durante o conflito no dia 22, ainda se recupera em Porto Seguro, no sul da Bahia. Uma bomba de gás lacrimogêneo jogada pela polícia explodiu perto dele e o feriu na perna. Ele teve um corte de quase dez centímetros na altura do tornozelo e queimaduras. Um pouco acima
há um outro corte, causado por um estilhaço da bomba. Ferreiroa ainda não pode andar e, apesar dos medicamentos, queixa-se de fortes dores. Seu caso é considerado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) um dos mais graves registrados no conflito.
Instalado com outros dois índios no pequeno e abafado quarto de uma modesta pousada no centro de Porto Seguro, de onde sai para fazer curativos no hospital público local, ele passou os dois últimos dias tentando refazer a sequência de acontecimentos da manhã do dia 22. Mas até agora não conseguiu se lembrar de tudo: "Quando a polícia começou a atirar, eu corri, com meus parentes, tentando escapar. Não lembro da hora em que a bomba explodiu, nem sei se senti dor, porque continuei correndo, correndo, até que não aguentei mais e caí. Nessa hora, os parentes me ergueram e me levaram embora."
Guereiro - Ferreira faz parte do grupo xucuri cariri, que se divide em quatro aldeias ao redor de Palmeira dos Índios, no Estado de Alagoas. Em sua tribo ele trabalha no plantio de bananas e tem o título de guerreiro, cuja principal função é defender os interesses de seu povo.Foi por isso que ele viajou 20 horas de ônibus e esteve em Santa Cruz Cabrália para participar da Conferência Indígena, entre os dias 18 e 21.
Também foi em nome de seu povo que na manhã do dia seguinte Ferreira marchou na linha de frente do grupo que saiu de Cabrália em direção a Porto Seguro, onde haveria a manifestação do movimento Outros 500. Numa curva da estrada, porém, ele e seus companheiros foram impedidos de prosseguir pela PM.
No quarto de Ferreira também está hospedado o índio José Carlos Pereira de Lima, de 32 anos, que sofreu uma queimadura mais leve na perna, e o cacique Cícero Francelino da Silva, de 56 anos, que os acompanha. Os três também se queixam de irritações na garganta, causadas pelo gás lacrimogêneo.
Terra - De acordo com Lima, que faz parte do conselho tribal dos xucuri cariri, uma das principais reivindicações de seu povo é a demarcação das terras onde vivem e trabalham - uma área aproximada de 13 mil hecatares. "A gente não é ruim, como se diz por aí, nem quer muita coisa", disse Lima. "Queremos paz e um pouquinho da terra que já foi de nossos antepassados, para manter nossas famílias e nossa cultura."
No dia do conflito, os três receberam o primeiro atendimento no pronto-socorro instalado em Cabrália. Mas, por causa do estado de Ferreira, o médico local recomendou sua transferência para Porto Seguro. Eles são assistidos pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que os instalou na pousada onde estão. Amanhã ou quarta-feira devem ser levados de avião para Alagoas. "Quando chegar lá, a gente vai cuidar dele com os curativos nossos, feitos com ervas do mato e que curam de verdade", disse o cacique, referindo-se ao jovem guerreiro.

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