O índio guarani Vicente Cândido de Lima, 39 anos, da reserva de Laranjinha, em Santa Amélia (63 km ao sul de Cornélio Procópio), foi morto ontem com dois tiros disparados por soldados da Polícia Militar. Um dos tiros atingiu as costas e outro a cabeça de Vicente. Quatro policiais estavam no local do crime, por volta das 16h30, em um trecho da reserva de difícil acesso. Os tiros foram disparados por dois deles, um de frente da vítima e outro pelas costas. O guarani carregava no colo a neta de apenas cinco meses quando foi morto. Segundo uma testemunha, ele estava sem camisa, pois usava a peça para proteger a criança.
Segundo o cacique Mário Paulino Sampaio, Vicente, que estava separado da mulher, pegou a neta e saiu pela aldeia. A ex-mulher, que mora com duas filhas, teria, segundo o cacique, imaginado que Vicente estava sequestrando a menina. O guarani havia caminhado por cerca de dois quilômetros quando foi cercado pelos policiais. No momento, o agricultor Jeferson de Abreu, 19 anos, estava indo para sua casa e presenciou o crime.
Segundo relatou o agricultor, Vicente pedia aos policiais, que estavam a cerca de 10 metros da vítima, que abaixassem as armas que ele entragaria a criança. Junto com os quatro policiais estavam a ex-mulher e as duas filhas do guarani que, segundo a testemunha, pressionavam os policiais a retirarem a criança de Vicente.
A testemunha disse ainda ao delegado da Polícia Federal em Londrina, Pedro Paulo Figueiredo, que Vicente não estava armado e insistiu por mais de uma vez que os policiais abaixassem as armas, para que ele pudesse entregar a neta à filha. A criança chorava muito, quando ocorreram os disparos. O agricultor disse ainda que a família e os policiais deixaram o corpo de Vicente abandonado no local, onde representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) de Londrina chegaram somente por volta das 21h30, devido a forte chuva.
O delegado de Santa Amélia, Luiz Nelo Pagliaci, não comentar o caso com a reportagem da Folha. O comando da PM no município de Bandeirantes também foi procurado ontem à noite pela reportagem. Por volta das 22 horas, através de sistema de rádio, o comando pediu que fosse transmitido à reportagem que uma posição oficial sobre o fato seria emitido somente hoje.
O corpo de Vicente permanecia no local do crime até por volta das 22 horas de ontem. O cacique Sampaio não autorizou a retirada do cadáver, alegando ser uma reserva indígena. ‘‘Invadiram a reserva a tiraram a vida de um índio da reserva’’, disse o cacique no meio da noite. Moram em Laranjinha 55 famílias.

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