Indignados, moradores do Ipiranga limpam suas casas e contam os prejuízos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de janeiro de 2000
Por Natalie Antar 
São Paulo, 14 (AE) - Pelo segundo dia consecutivo, moradores, comerciantes e empresários da região do Ipiranga, na zona sul da capital, tiveram muito trabalho para conseguir limpar a sujeira deixada pela enchente de quarta-feira. Ruas, casas e empresas estavam cheias de entulho e lama. Por toda parte, além da destruição, estava a indignação das pessoas em relação ao descaso da administração pública.
Na porta da casa do autônomo Jorge Luís dos Santos, de 35 anos, na Avenida Teresa Cristina, havia uma faixa com a frase: "Estamos com fome, mas isso é um prato cheio para os políticos vagabundos". Santos disse que todo ano o bairro sofre com a enchente. "Mas, desta vez, foi demais", afirmou. "Será que ninguém vai comover-se com a situação das pessoas que perderam tudo?"
Outro que estava aflito com a situação era José Pereira de Souza, de 51 anos, proprietário de uma lanchonete na Rua Hipólito Soares. Em seu estabelecimento, a água chegou a quase 2 metros. Mesmo assim, na manhã de hoje, Souza tinha esperanças de fazer funcionar a geladeira, que comprou em 12 parcelas. O esforço de nada adiantou. "Só consegui salvar alguns copos de água mineral", disse.
Morador de Mauá, na Grande São Paulo, ele decidiu montar o negócio no Ipiranga há dez meses, com o dinheiro que economizara durante anos. "Nesta lanchonete está a história da minha vida". A dona de casa Josefa Ferreira, de 40 anos, foi mais uma pessoa que perdeu tudo com a forte chuva. "Não deu para salvar nada, pois a água subiu muito rápido", contou. "Graças a Deus que o meu filho está na casa de uma tia na Paraíba passando férias".
Metalúrgica - Os funcionários da metalúrgica Bernadini passaram o dia de hoje tentado limpar e retirar a lama espalhadas pelos 22 mil metros quadrados do local. A força da água da chuva foi tão grande que derrubou uma das paredes da empresa, por onde a água entrou. Na manhã de ontem, mesmo com o sol brilhando dentro da metalúrgica, a água alcançava quase 2 metros de altura. "Em apenas um dia não dá para limpar tudo", disse o gerente-industrial Valter Marchi Júnior. Ele afirmou que o prejuízo é de aproximadamente R$ 6 milhões.
Além da dor de cabeça de limpar a sujeira, a metalúrgica teve de pôr funcionários de prontidão na fábrica, pois havia pessoas tentando entrar no local, pela parede derrubada, para retirar objetos. Marchi Júnior informou que os advogados da Bernadini S.A. vão entrar com um processo na Justiça contra a Prefeitura e o governo do Estado pedindo indenização pelos danos causados pela enchente. Ribeirão Pires - O vice-prefeito de Ribeirão Pires, Jair Diniz, decretou estado de alerta no município, hoje, por causa das chuvas dos últimos dias, que estão provocando quedas de muros e deslizamentos.


