Belgrado, 28 (AE-AP) - O enviado da Rússia para os Bálcãs, Viktor Chernomyrdin, declarou-se hoje (28) "muito satisfeito" depois de nove horas de conversações com Slobodan Milosevic, mas não houve sinais de que o presidente iugoslavo estava desejando mudar de curso um dia depois de seu indiciamento como suposto criminoso de guerra.
Um comunicado iugoslavo divulgado após o encontro reiterou que o governo aceita os princípios gerais acordados este mês pelas nações do Grupo dos Oito (G-8).
Mas sem mencionar a questão da presença de tropas estrangeiras em Kosovo, afirma-se no comunicado que a "soberania e integridade territorial" da Iugoslávia permanecem invioláveis - sugerindo sua continuada oposição a qualquer força estrangeira em Kosovo que seja bem armada e tenha um forte componente da Otan.
Mesmo assim, Chernomyrdin disse acreditar ter feito progresso suficiente e estava quase certo de que seria capaz de retornar a Belgrado com o enviado da União Européia, o presidente finlandês Martti Ahtisaari.
Mais cedo hoje, Chernomyrdin lamentou que o indiciamento do líder iugoslavo tenha feito com que Ahtisaari não o acompanhasse a Belgrado. Ele afirmou a repórteres que espera que suas conversações com Ahtisaari e o enviado norte-americano Strobe Talbott sejam retomadas depois de seu encontro com Milosevic.
Ao invés de acompanhar Chernomyrdin, Ahtisaari vôou quinta-feira para Bonn para conversar com líderes alemães. Ele não explicou sua decisão de não ir a Belgrado, mas disse esperar ir na próxima semana.
Antes de retornar a Moscou, Chernomyrdin disse ter ficado "muito satisfeito com sua visita a Belgrado", informou a agência de notícias russa Itar-Tass.
O comunicado iugoslavo emitido no fim das conversações entre Chernomyrdin e Milosevic reitera a insistência do líder iugoslavo que o Conselho de Segurança da ONU trate da crise, acrescentando que deve-se dar a ele o poder de lidar "com todo o problema".
A expressão "todo o problema" indica que - com a campanha aérea da Otan em seu terceiro mês - Milosevic pode estar mais disposto do que antes a aceitar o que o Conselho de Segurança decidir para Kosovo como forma de pôr fim à crise.
A Rússia e a China têm poder de veto no conselho e provavelmente não aceitarão nada que seja veementemente rechaçado por Belgrado.
Num sinal de que Belgrado estaria disposto a negociar dois disputados pontos-chaves, Chernomyrdin disse que especialistas militares da Rússia viajando com ele discutiram com seus colegas iugoslavos condições para uma retirada do exército e tropas da polícia iugoslava de Kosovo e a entrada de um contingente internacional sob a égide da ONU na região.
A televisão estatal mostrou Milosevic reunido com Chernomyrdin em sua residência oficial no distrito de Dedinje acompanhado pelo ministro do Exterior Zivadin Jovanovic e vários generais.
Chernomyrdin estava acompanhado do embaixador russo Yuri Kotov e outros em sua delegação.
Chernomyrdin disse que seu quarto encontro com o líder iugoslavo desde o início da campanha de ataques aéreos da Otan em 24 de março visava ao fim da violência em Kosovo e os vinculados bombardeios.
"A coisa mais importante é ter a suspensão dos bombardeios para que as negociações políticas possam continuar", teria dito ele, segundo a agência estatal de notícias Tanjug. Mas altos oficiais russos indicaram que Chernomyrdin não estava levando novas alternativas de seus dois dias de conversações em Moscou com Talbott, o subsecretário de Estado dos EUA, e Ahtisaari.
Chernomyrdin disse que o indiciamento do líder iugoslavo por acusações de crimes de guerra não iria afetar sua missão.
O Tribunal de Crimes de Guerra da ONU em Haia, Holanda, indiciou Milosevic e quatro outros altos oficiais na quinta-feira. Eles foram acusados de crimes contra a humanidade por planejarem e executarem crimes de guerra contra albaneses étnicos em Kosovo.
Hoje, a Suíça emitiu ordem de prisão para os cinco e anunciou que estava examinando uma ordem da Corte de Haia para congelar qualquer fundo de Milosevic e seus associados em bancos suíços.
Em Kosovo, a Kosovapress, agência de notícias controlada pelos guerrilheiros albaneses étnicos da província, divulgou que aviões da Otan jogaram panfletos dando conta que evidências foram colhidas contra todos aqueles que "exercitaram genocídio, assassinatos, limpeza étnica, estupros, deportações, incêndios de casas e instituições religiosas, e cometeram crimes contra a humanidade".
Nos panfletos afirma-se que tais evidências estavam sendo entregues ao tribunal de Haia; advertia-se os comandantes que eles são "responsáveis pelas ações de seus soldados"; e avisava aos soldados para não obedecerem "ordens ilegais de seus comandantes, já que tudo está sendo observado".
Talbott sublinhou que Chernomyrdin não estava negociando em nome da aliança, nem estava agindo como mediador no conflito entre as 19 nações da Otan e as tropas e polícia sérvias.
"Eu não vejo Chernomyrdin como levando nossa mensagem para Belgrado", disse Talbott em Bruxelas, onde informava ao Conselho do Atlântico Norte, o principal órgão político da Otan, sobre suas conversações com o ex-premier russo e Ahtisaari.
"Ele está levando apenas a mensagem do presidente russo e do governo russo. Ele também irá se referir ao que ele entende ser a posição do governo dos EUA. O senhor Chernomyrdin não está negociando pela Otan nem pelos Estados Unidos."
Os Estados Unidos e a Rússia têm profundas diferenças sobre a crise de Kosovo. As mais profundas referem-se aos bombardeios e à composição de uma eventual força militar internacional que manteria a paz em Kosovo.
A Otan insiste que todas as forças sérvias devem deixar a província, antes o lar de 1,6 milhão de albaneses étnicos, sendo que a maioria foi expulsa do país e a maioria do restante foi expulsa de suas casas.
Enquanto isso, a Otan tomou vantagem do bom tempo para atacar diversos alvos no 66º dia de sua campanha aérea.
A aliança disse ter atacado duramente as forças sérvias nas últimas 24 horas, atingindo pelo menos 20 peças de artilharia, dois tanques, um veículo blindado e outros equipamentos ao lado de uma longa lista que incluía quatro bases aéreas, seis estoques de munição e petróleo e estações de comunicação de rádio.
Jatos da aliança também bombardearam quatro torres de transmissão elétrica e dois campos de transformação nas proxiidades de Belgrado, quartéis da polícia na capital kosovar de Pristina e uma instalação militar em Leskovac.
A maior parte de Belgrado e da Sérvia ficou sem luz nesta sexta-feira após ataques noturnos da Otan. A eletricidade voltou em alguns pontos no início desta noite, mas a companhia de energia da Sérvia informou que os danos foram substanciais e a eletricidade poderá ficar sem ser restaurada durante dias em Belgrado e na província de Vojvodina.
Sem luz, os moradores de Belgrado tiveram de tomar café gelado e soda morna nos cafés da cidade. Restaurantes e pizzarias fecharam, as padarias locais serviam massas envelhecidas e os carros negociavam a passagem nos cruzamentos devido ao não-funcionamento dos semáforos. Hospitais utilizavam-se de flashes de luz e geradores.

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