Indiciamento de Milosevic irrita a Rússia e divide Otan
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Por Maureen Johnson, da Associated Press 
Londres, 27 (AE-AP) - A Rússia e a China protestaram hoje (27) contra o indiciamento do presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, por crimes de guerra em Kosovo, afirmando que a iniciativa conturbava as perspectivas de paz, e os países da Otan estavam divididos.
A Grécia considerou que o indiciamento era um equívoco político, e a Alemanha reagiu cautelosamente.
Mas depois de conversarem por telefone, o presidente francês, Jacques Chirac, e o americano, Bill Clinton, concordaram que o indiciamento "mostra que a moral e a lei estão do nosso lado", disse a porta-voz francesa Catherine Colonna, em Paris.
Anteriormente, o ministro do Interior da França, Jean-Pierre Chevenement, afirmou que não aprovava a medida, acusando o tribunal de crimes de guerra de ter "uma visão pseudo moral ao invés de uma política".
O indiciamento torna Milosevic o primeiro chefe de Estado em exercício a ser acusado de atrocidades em tempo de guerra - levantando tanto críticas de que ele agora não tem mais razão para buscar um compromisso, quanto declarações de que o mundo sabe que ele terá de responder à justiça.
A Grã-Bretanha, entre os mais belicistas dos aliados, rebateu as críticas, e declarou que a Otan nunca iria fazer um acordo que dê imunidade ao líder sérvio.
"Não haverá questão de qualquer acordo que poupe Milosevic de ser julgado pelas acusações", disse o secretário do Exterior britânico, Robin Cook. "Não haverá anistia para crimes de guerra".
Em Haia, na Holanda, o Tribunal de Crimes de Guerra para a Iugoslávia anunciou que havia indiciado Milosevic e quatro outras altas autoridades por crimes contra a humanidade na brutal expulsão de 750.000 albaneses étnicos de Kosovo, uma província da república sérvia da Iugoslávia.
Em Bruxelas, Bélgica, o porta-voz da Otan Jamie Shea afirmou que o bombardeio aéreo contra a Iugoslávia continuará até que Milosevic se curve às exigências da aliança. Entre elas incluem a retirada das forças sérvias de Kosovo, o retorno dos albaneses étnicos e o estacionamento na província de uma força de paz internacional.
A questão chave para muitos políticos, entretanto, era se o indiciamento tornará as negociações de paz mais difíceis.
O ministro do Exterior alemão, Joschka Fischer, em visita a Paris, disse: "Saberemos provavelmente em alguns dias se isto fará nosso trabalho mais fácil ou mais difícil".
Em Moscou, o porta-voz do presidente russo, Boris Yeltsin, reclamou que Milosevic era o presidente legalmente eleito de "um país que caiu em problemas".
"Tentando resolver a situação nos Bálcãs, se você está negociando com a Iugoslávia, você tem de negociar com uma pessoa
o presidente da Iugoslávia", acrescentou o porta-voz presidencial Dmitry Yakushkin.
A China, que como a Rússia se opõe à campanha aérea da Otan desde seu início em 24 de março, expressou-se preocupada com os efeitos do indiciamento "sobre os esforços para fazer avançar uma resolução política", disse o porta-voz do Ministério do Exterior Zhu Bangzao.
A Grécia, o membro da Otan menos entusiasta com os ataques aéreos, anunciou que o indiciamento era "politicamente errado".
O enviado especial da ONU Eduard Kuken expressou questionamentos semelhantes.
"Acho que ele (Milosevic) irá endurecer suas posições", afirmou Kuken, ministro do Exterior da Eslováquia, em Oslo, Noruega. "Por outro lado, você tem de respeitar a decisão de um órgão independente que foi criado pelo Conselho de Segurança (da ONU)".
As declarações de Kuken refletem a sensação de que, mesmo que o indiciamente seja politicamente inconveniente, o tribunal internacional comportou-se corretamente - o que o ministro do Exterior norueguês, Knut Vollebaed, descreveu como sendo "politicamente cego".
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, concordou que o tribunal deve agir com independência.
"A procuradora deve desta forma ir até onde as evidências a levem. Deve-se permitir que a justiça siga seu curso", afirmou Annan num comunicado em Nova York.
A Grã-Bretanha e os Estados Unidos expressaram a esperança de que o indiciamento faça aumentar a oposição entre os sérvios a Milosevic.
"Acreditamos que deixando claro ao povo da Sérvia que foi sua liderança que jogou está crise sobre eles irá ajudar a criar apoio pelo fim da crise nos termos da Otan", disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, James Rubin, em Washington.


