Montevidéu, 04 (AE) - Em que país da América Latina um político chegaria à presidência com o slogan "mais do mesmo"? Os que optaram pelo continuísmo de Jorge Batlle apresentam uma justificativa que chega a soar singela: "Por que mudar, se o país está bem?" Alguns dados mostram que essa mentalidade não se pode atribuir apenas ao folclórico conservadorismo uruguaio.
O Uruguai tem a melhor distribuição de renda da América Latina. Apenas 6% da população está abaixo da linha de pobreza. Não existe miséria. O nível de educação é visivelmente alto e tem melhorado, com persistente investimento do atual governo no ensino público - que Batlle promete incrementar. O analfabetismo aproxima-se de zero e a expectativa de vida é de 78 anos.
Em dezembro de 1990, quando o então presidente Luis Alberto Lacalle implantou a segunda versão de seu plano de estabilização
a inflação anual era de 129%. O acumulado dos últimos 12 meses está em 3,28% - e caindo. "O sistema de âncora cambial teve efeito muito gradual, porém bem-sucedido", constata o diretor do Instituto de Economia da Universidade da República, Fernando Antía.
O maior problema econômico vivido pelo Uruguai nos últimos tempos foi engendrado fora de suas fronteiras: a desvalorização do real, em janeiro. Foi avassalador o impacto sobre as exportações uruguaias, não só para o Brasil, maior destino dos produtos uruguaios (um terço do total), mas também para a Argentina, igualmente afetada pela crise brasileira.
Entre janeiro e junho, o Uruguai exportou US$ 266,7 milhões para o Brasil, ante US$ 476,9 milhões no mesmo período de 1998, queda de 44,1%; para a Argentina, US$ 178,4 milhões, ante US$ 243,3 milhões, ou -26,7%.
O desemprego saltou do patamar já relativamente alto - porém amortecido por um sistema de seguro-desemprego eficiente - de 10 2% em setembro de 1998 para 11,4% em setembro deste ano. A arrecadação sofreu a brutal redução de 8,3% entre janeiro e agosto, ante o mesmo período no ano passado.
O Produto Interno Bruto deve encolher 2,5% este ano. O déficit público saltou de 2,5%, em junho, para 2,9%, em julho.
A economia é fortemente dolarizada: 80% dos ativos financeiros estão em moeda norte-americana - e, com eles, as dívidas. Uma desvalorização parece, portanto, fora de questão. "O grande imperativo do Uruguai é a competitividade", conclui Antía.

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