Davos, Suíça, 02 (AE) - Consultores de reputação internacional ainda se espantam com o Brasil: "Armínio Fraga, do Soros Fund?", exclamou o economista-chefe global do Zurich Insurance Group, David Hale, ao saber o nome recém-apontado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para presidir o Banco Central. A surpresa foi justificada tanto pela indicação quanto pela curta duração - apenas 18 dias - da gestão de Francisco Lopes na chefia do BC. A reação logo deu lugar a uma avaliação positiva: "Armínio conhece todos os hedge funds e fundos de investimento de Nova York e todo o mundo o respeita no mercado"
disse Hale. É um bom nome, segundo ele, para garantir acesso ao sistema financeiro privado e um operador com experiência dos aspectos práticos das finanças. Fraga, além disso, tem boas relações no Fundo Monetário Internacional e no Tesouro dos Estados Unidos, lembrou o economista.
Pode-se escolher entre surpresa, como a demonstrada por David Hale, e uma notável coincidência. Na segunda-feira, véspera da indicação oficial de Armínio Fraga, George Soros havia sugerido a participação dos bancos privados no financiamento ao Brasil, para reforçar o apoio oferecido pelo FMI, por outras instituições multilaterais e por um grupo de governos do Primeiro Mundo. Soros acentuou, na entrevista, que o real está subvalorizado, a maior parte das medidas necessárias ao ajuste fiscal foi aprovada e os bancos, depois de terem reduzido suas aplicações no Brasil, têm espaço para voltar e reassumir o risco.
Hale também mencionou, hoje, como dado favorável, a aprovação da maior parte do pacote de ajuste fiscal. Mostrou preocupação, porém, com o comportamento dos governadores depois da reação iniciada por Itamar Franco.
Equipado para crise - O economista havia examinado o caso brasileiro, um dia antes, no final de um longo ensaio sobre as perspectivas da economia mundial. O Brasil, segundo esse trabalho, apresentado na reunião do Fórum Econômico Mundial, é a principal preocupação dos mercados no curto prazo. O enfraquecimento do real, segundo Hale, reavivou os temores em relação ao dólar de Hong Kong e à moeda da China, o yuan, além de afetar os juros em países latino-americanos e ter estimulado a Argentina a "flertar publicamente com o conceito de dolarização".
Hale chamou a atenção para um diferencial positivo da economia brasileira: "o Brasil está mais bem equipado para enfrentar uma desvalorização do que estava o México em 1995 ou a ásia em 1997-98, porque seu sistema bancário há muito está sob controle privado e o setor empresarial não se alavancou com débitos em moeda estrangeira na mesma escala das companhias na Tailândia ou na Coréia".
O choque da desvalorização, observou Hale, ajudou o presidente Fernando Henrique Cardoso a conseguir a aprovação das medidas de ajuste no Congresso. Ele tem sido forçado, porém, a enfrentar a ameaça de calote de "governadores que promovem agendas populistas", lembrou. A forma brasileira de democracia, comentou o economista em seu estudo, praticamente exige uma crise para a aprovação de grandes reformas - "mas tais crises também provocam choques de juros e paradas nos negócios que prejudicam a capacidade do governo de alcançar suas metas fiscais".

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