Genebra - A indicação do especialista brasileiro Paulo Teixeira para formular a nova política de Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) provoca reação negativa da Casa Branca. Segundo altos funcionários da agência de saúde da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo dos Estados Unidos já deixou claro ao diretor eleito da OMS, Jong Wook Lee, que não ficou satisfeito com a escolha do brasileiro. O governo dos EUA pretende indicar um de seus funcionários para integrar a nova equipe de Aids da OMS.
Teixeira foi indicado na semana passada para ocupar o cargo na OMS. O objetivo é levar a experiência brasileira de tratamento da Aids e distribuição gratuita de remédios para outras regiões do mundo. A política incluiria garantir remédios baratos aos governos mais pobres e atender 3 milhões de pessoas, principalmente na África.
Os Estados Unidos temem que essa iniciativa inclua a pressão da OMS para que as empresas multinacionais garantam remédios a preços mais baixos ou por maior atenção ao desenvolvimento de empresas produtoras de remédios genéricos. Além disso, o temor é de que governos se sintam fortalecidos para quebrar patentes de remédios de empresas multinacionais que não cumprirem a determinação de baixar seus preços.
Assessores diretos do presidente George W. Bush afirmaram que ''Paulo Teixeira e o governo dos Estados Unidos têm visões diferentes do mundo''. Segundo um diplomata, Washington também quer dar assistência aos pacientes em países em desenvolvimento, mas não por meio do fortalecimento de empresas que produziriam genéricos. ''A OMS não é especializada na área industrial. Acreditamos que a melhor forma de garantir o tratamento é fortalecendo os sistemas de saúde'', afirmou o representante da Casa Branca.
Os lobbistas das empresas farmacêuticas também deixaram claro que o setor se opõe à idéia de expandir o tratamento gratuito, como ocorre no Brasil. Na avaliação do diretor da Federação Internacional das Indústrias Farmacêuticas, Harvey Bale, a distribuição de remédios no Brasil foi possível porque o País tem recursos adequados para a iniciativa. ''Tenho sérias dúvidas se a experiência brasileira (de distribuição de remédios) poderia ser repetida em outros países mais pobres'', afirma Bale.
A atual diretora da OMS, Gro Harlem Brundtland, não é cética quanto ao tratamento aos pacientes com Aids em todo o mundo. ''Não acredito que seja uma proposta viável. Não é como dar doce às pessoas, pois os sistemas nacionais de saúde precisam estar adequados para fazer a distribuição de medicamentos'', afirma Brundtland, que durante seu mandato foi duramente criticada pelos países em desenvolvimento por não apoiar uma idéia de universalizar o tratamento da Aids.
Técnicos do Ministério da Sa© úde lembram que o Brasil conseguiu distribuir remédios para Aids até mesmo nas regiões mais pobres.

mockup