INDIAPOP16/Mar, 12:05 Por Carla Power Londres,(AE-NEWSWEEK) - A rainha está na tela da TV e um imigrante indiano e seu filho estão assistindo. A monarca britânica é indiana, na verdade, afirma o pai. "Acompanhe o meu raciocínio", diz ele. "Eles vivem todos juntos na casa da família? Então são indianos. Todos trabalham no mesmo negócio de família? Então são indianos. Todos fazem casamentos arranjados? Então são indianos. Os filhos vivem com os pais até se casarem?Indianos!" Como outros esquetes do humorístico britânico "Goodness Gracious Me", a rotina do "Sr. Tudo Vem da Índia" brinca tanto com os estereótipos britânicos como com os indianos. Nada é sagrado para o programa: quatro comediantes britânico-asiáticos distribuem igualmente suas farpas entre matriarcas brâmanes, falsos gurus que exploram a credulidade de ocidentais, documentários chatos da BBC e muçulmanos que, misteriosamente, se descobrem pais de Woody Allen. Os britânicos adoram a irreverência: em dois anos, "Goodness Gracious Me" virou um grande sucesso da TV. Não há melhor sinal de que se foi aceito do que ser capaz de rir - e rir de si mesmo - com impunidade. Os asiáticos começaram a se estabelecer na Grã-Bretanha em grandes números há três décadas. Trabalhavam em fábricas e lojinhas, enfrentando insultos racistas e longas horas de trabalho e muitos se deram bem. Agora seus filhos e netos não são apenas médicos e engenheiros, mas artistas que estão agitando o cenário cultural britânico com novas comédias, novas músicas e novos dramas. Os vínculos com a Índia, o Paquistão e Bangladesh ainda permanecem, é claro. Descendentes de imigrantes nascidos na Inglaterra podem ser ferozmente leais à terra de seus ancestrais, mas a nova arte britãnico-asiática transcende a política. Sikhs do Punjab do subúrbio londrino de Southall podem muito bem discutir a corrida nuclear na ásia com os muçulmanos de Bradford, enquanto ouvem fusion asiático num clube de Londres. O estilo Asian chic não é novidade. Os Beatles foram para a Índia três décadas antes de Madonna começar a usar bindis e pintar suas mãos com henna. Mas o renascimento asiático britânico tem bem menos a ver com o ato de tomar de empréstimo uma cultura estrangeira do que fazer o que vem naturalmente. Os garotos que curtem música hindi em casa também escutam os Smiths e assistem ao Monty Python com os amigos. Hoje, lentamente, os costumes orientais estão invadindo a cultura britânica. Casas noturnas como o Stoned Asia atraem um público misto. Nos palcos de teatros de Birmingham e Londres, atores asiáticos falam em pinjabi, hindi e inglês. East Is East, uma comédia sobre uma família muçulmana britânica em cartaz há meses vem fazendo um sucesso estrondoso e venceu o Evening Standard Film Award na categoria de melhor filme. Londres transformou-se na meca cultural dos jovens sul-asiáticos do mundo inteiro.Primeiro foi a música - uma versão funkeada de uma dança folclórica do Punjab chamada bhangra - que deu voz aos britânico-asiáticos. Como o jazz para os afro-americanos, a bhangra, geralmente executada em casamentos ou nas escolas, deu aos britânico-asiáticos a "sensação de pertencer a algum lugar", segundo Avnar Litt, fundador da Sunrise Radio, uma estação de rádio asiática de Londres. Ao longo da última década, porém, a bhangra evoluiu para uma rica e variada cena musical. Nos fins de semana nos clubes londrinos, os DJs sampleiam cantores de Bollywood e drum'n'bass, mixam tabla com hip-hop ou transformam a música de cítara em jazz. O músico mais famoso da onda asiática é Talvin Singh, um virtuose da tabla, que virou manchete nos jornais britânicos quando seu CD, O. K., conquistou o Mercury Prize de 1999, derrotando o Manic Street Preachers e o Blur. Nos anos 80, Salman Rushdie e Hanif Kureish escreveram sobre a exclusão dos asiáticos da cultura americana. A nova geração, porém, está unindo os dois mundos. Gavin Fernandes, fotógrafo de moda de 26 anos, tenta explodir com os velhos estereótipos do curry e da lojinha da esquina. Seu portfolio mostra jovens asiáticas vestidas como skinheads racistas ou jovens de turbante vestidos como fãs de hip hop. Fernandes diz que ser capaz de se mover no mainstream cultural ocidental é fundamental para seu trabalho. Agora que global é a palavra da moda, ser poliglota e bicontinental de repente é uma vantagem. "Os jovens britãnico-asiáticos desenvolveram uma espécie de complexo de superioridade", brinca Litt da Sunrise Radio, que fica em Southall. Com seus designers saavy, estúdios de gravação de fusion e velhos pubs ingleses com placas em hindi, Southall é considerada uma cidade indiana cosmopolita por punjabis do mundo todo - e uma influência cada vez maior para a Índia. A bhagra costumava ser pinjabi, mas agora, filtrada pelos estúdios londrinos, está se popularizando em toda a Índia. O que é asiático e o que é britânico estão se tornando questões retóricas à medida que as duas culturas se entrelaçam.

mockup