Lisboa, 30 (AE) - Com a certeza da vitória no plebiscito sobre a independência, realizado hoje (30), a resistência timorense acredita que só dentro de alguns anos o país vai se separar da Indonésia.
"Depois da contagem dos votos, deverá ocorrer um período mínimo de 2 anos e máximo de 4 anos para a independência. Esse período é fundamental para criar condições de estabilidade social e política em Timor", afirmou hoje em Lisboa José Luís Guterres, secretário para as relações internacionais do Conselho Nacional da Resistência Timorense.
Segundo Guterres, formado em marketing político e que há 24 anos faz parte da direção do movimento contra a dominação indonésia, uma declaração imediata de independência criaria uma situação ingovernável em Timor. "Tem ocorrido problemas entre os pró- independência e os colaboradores e se não houver tempo suficiente para sarar as feridas e criar novos laços com o Estado indonésio podemos ter uma situação difícil".
Para Guterres, a maior resistência que a independência de Timor pode enfrentar vem dos militares. "Na Indonésia ainda há muitos generais que consideram que Timor é o ponto mais alto das suas carreiras. Foi por ordem dos militares que houve tentativa de desestabilizar o plebiscito sobre a independência".
Ele atribui a relativa calma em que ocorreu a votação - apenas foram registrados seis incidentes - às mudanças no comando das forças armadas do país ocupante. "Nos últimos dias, o general indonésio que orientava as milícias, Zak Anuar, foi destituído. Também os comandantes na zona de fronteira entre Timor e a Indonésia foram demitidos".
A grande ameaça ao ato eleitoral vinha das milícias organizadas pelas forças indonésias, que primeiro tentaram impedir o cadastramento dos eleitores e depois tentaram criar um clima de terror para as pessoas não irem votar.
Guterres considera que um fator importante para que a votação não tivesse incidentes foi a pressão norte-americana: "Nos últimos dias, os Estados Unidos, que treinaram e são fornecedores de armas para o exército indonésio pressionaram o governo de Habibie. O próprio presidente Bill Clinton afirmou claramente que se a Indonésia não cumprir sua parte do acordo, as relações entre os Estados Unidos e a Indonésia seriam postas em causa".
Apesar de o resultado do referendo só sair dentro de uma semana, a decisão sobre a aceitação da independência deverá ser tomada pelo próximo governo de Jacarta, que apenas vai tomar posse no fim do ano, mais de seis meses depois das eleições.
A candidata mais votada para o cargo de primeiro-ministro, Megawati Sukarnoputri posicionou-se contra a independência. "Todos os partidos indonésios afirmaram que iam respeitar a decisão de Timor. Megawati fez uma declaração dizendo que era a favor da integração na Indonésia, mas aceitava a decisão dos timorenses. Acredito que ela vai cumprir", diz Guterres.
O líder da resistência não considera que a independência de Timor vai ser responsável pela desagregação da Indonésia, país que tem vários movimentos separatistas: "Antes da invasão de Timor, já existiam movimentos em Aceh, Iran Jaia e nas Molucas. O que gerou problemas foi a centralização e o desrespeito pelos direitos humanos praticado pelo governo de Suharto".

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