Independência do BC é condição para estabilidade, diz Lopes
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 1999
Por Irany Tereza 
Rio, 03 (AE) - O economista Francisco Lopes passou hoje o primeiro dia como ex-presidente do Banco Central lendo os jornais e assistindo a dois filmes que misturam ação, ficção científica e terror: "Alien 4" e "Advogado do Diabo". Entre uma atividade e outra, defendeu a urgência de um Banco Central independente, numa relutante entrevista concedida no trajeto que fez a pé de uma churrascaria onde almoçou, em Ipanema, até o prédio onde mora, em Copacabana. "Somente o câmbio livre flutuante e a independência do Banco Central podem garantir a estabilização", pregou.
Tranquilo e bem-humorado, ele saiu de casa pouco depois das 13 horas, repetindo que não daria entrevistas. "Estou feliz porque vou ficar de férias", brincou, dizendo que passará dois meses descansando. Negou os comentados desentendimentos com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, mas respondeu apenas com sorrisos às perguntas sobre a ingerência do Fundo Monetário Internacional (FMI) na política econômica brasileira. "O Brasil precisa muito de um Banco Central independente", comentou.
Lopes não quis falar sobre a nova condução da política econômica. "Vocês têm de conversar com o Demósthenes (Madureira de Pinho Neto), o Armínio (Fraga), esse pessoal. Eu não sou mais do BC." Fez questão de elogiar o substituto, que classificou de "muito competente", mas, insistiu na defesa da independência do banco, dizendo que o conceito é um consenso nos países desenvolvidos.
A autonomia, sengundo ele, não significaria perda de transparência, já que a direção do banco teria supervisão mais estreita do Congresso, ao qual teria de se reportar a cada seis meses.
Lopes esforçou-se, porém, em deixar claro estar falando do futuro e desmentiu que tivesse enfrentado dificuldades por causa do excesso de vinculação do BC ao Poder Executivo. "Com Fernando Henrique, o Banco Central sempre foi muito
Mas, novamente apenas sorriu ao ser indagado sobre as manobras do mercado para forçar a alta do dólar (a chamada operação "Zé com Zé) e sobre o fato de seu substituto e ex-aluno Armínio Fraga ter saído direto do fundo do megainvestidor George Soros para ocupar a presidência do BC.
"A lei complementar que propõe a independência do BC prevê a quarentena mas, infelizmente, não vou pegar a lei, senão teria 12 meses ainda de remuneração", ironizou.
Câmbio - Afirmando que a liberação do câmbio foi uma medida acertada, Lopes disse não acreditar no agravamento da crise e disse que agora "vai depender do mercado" encontrar um parâmetro real para a cotação do dólar. "Acho que a situação está sob controle", declarou. "Não sei quanto está o dólar hoje, mas está melhorando."
Informado de que a cotação da moeda norteamericana havia caído para R$ 1,75, ele recusou-se a fazer previsões sobre a tendência da política cambial. "Preciso parar de preocupar com esses problemas, porque já tem muita gente competente cuidando disso."


