Indefinição do Enem preocupa estudantes e entidades
Ministério da Educação alterou datas do Enem Digital, mas manteve cronograma para a aplicação da versão impressa do exame
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de abril de 2020
Ministério da Educação alterou datas do Enem Digital, mas manteve cronograma para a aplicação da versão impressa do exame
Viviani Costa - Grupo Folha 
A Justiça Federal de São Paulo determinou que o MEC (Ministério da Educação) altere as datas das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em razão da pandemia do novo coronavírus. No entanto, apenas o cronograma do novo Enem Digital foi reorganizado. O exame, antes previsto para os dias 11 e 18 de outubro, foi transferido para 22 e 29 de novembro. O edital foi alterado nesta quarta-feira (22).

A modalidade, ainda em projeto piloto, apresenta diversas restrições. Para o Enem Digital serão disponibilizadas até 100 mil inscrições. Os candidatos terão que comparecer aos locais de prova e realizar o exame por meio de computadores. A redação ainda terá que ser preenchida manualmente no papel. O exame será aplicado em 99 municípios do Brasil. Curitiba, Londrina, Maringá, Apucarana, Cascavel e Francisco Beltrão foram os escolhidos pelo MEC no Paraná.
Quem optar pelo Enem Digital não poderá fazer o exame na versão tradicional que, no ano passado, registrou mais de 5 milhões de inscritos em todo o País. As provas foram realizadas em 1.727 cidades. O Enem na versão impressa está marcado para os dias 1º e 8 de novembro.
Para a Abave (Associação Brasileira de Avaliação Educacional), a manutenção do cronograma “poderá prejudicar o futuro dos estudantes mais vulneráveis do País e ampliar as desigualdades de acesso ao ensino superior”. Em nota, a associação pede o adiamento das datas das provas e do prazo de inscrições previsto entre 11 e 22 de maio para as duas modalidades do exame.
“Por causa do coronavírus, vários países, comprometidos em garantir a adequada participação dos estudantes, adiaram seus exames nacionais de acesso ao ensino superior, como por exemplo o Gaokao na China, o SAT nos EUA, o BAC na França, o A Level na Inglaterra, entre outros”, reforça. O Enem é utilizado para o ingresso em diversas universidades nacionais e internacionais.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) e a Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) também saíram em defesa do adiamento e suspensão do edital. “Muitos desses jovens sequer têm acesso às ferramentas necessárias para atividades virtuais, e mesmo que tivessem sabemos que o aproveitamento do ensino-aprendizagem fica fortemente em defasagem em relação às atividades presenciais”, afirmam em nota. Para as entidades, seria necessário debater um calendário em conjunto com a rede de ensino.
No último domingo (19), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, declarou nas redes sociais que “governadores fizeram uma quarentena generalizada e precipitada”. “A população está no limite. Alunos sem aula ficam preocupados com o Enem. O ano não está perdido! Governadores devem planejar o retorno das aulas, tirar as nádegas da cadeira e rebolar atrás do prejuízo”, completou.
“Alegam que muitos morrerão pelo corona (prova é em novembro). Alegam que alunos estão sem aula (quarentena acaba em semanas). Alegam que pobres sem internet serão prejudicados (inscrição é feita pela internet e 3.200.000 de "pobres" já solicitaram isenção de taxa pela internet)”, afirmou nas redes sociais utilizando a hashtag ‘VaiTerEnem’.
A estudante Julia Marchiori, 19, mantém a rotina de estudos para tentar uma vaga no curso de engenharia civil na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Ela pretende prestar o vestibular e fazer as provas do Enem, já que a nota no exame também é aceita pela universidade.
“Tenho esse privilégio de poder estudar em casa. Tenho internet, meus pais me deixam só estudar, não tenho que trabalhar, mas a gente tem que levar em conta que no nosso país tem muita desigualdade social. Tem pessoas que não estão conseguindo estudar em casa. Tem pessoas que não têm o mesmo privilégio que eu. Tem pessoas que não têm internet, não têm material de apoio, não têm apostila. Com certeza, a data tem que ser adiada. A do vestibular também. É uma pandemia. Normalmente, já existe muita dificuldade. Imagina em uma pandemia? É preciso ter essa consciência coletiva, pensar que é uma pandemia e que todo mundo está tendo que parar sua vida para conseguir passar por isso da maneira menos pior possível”, destaca a estudante.
A coordenadora do curso pré-vestibular da UEL e professora de português no ensino médio, Rita de Cássia Oliveira, defende a suspensão do calendário de provas. “Tenho três turmas no terceiro ano do ensino médio e eles estão angustiados, todos muito ansiosos com tudo, preocupados com um futuro incerto e isso faz toda diferença. Eles percebem que não estão estudando no mesmo ritmo, estão sem o apoio presencial dos professores e dos amigos, que é fundamental para qualquer pessoa, principalmente para os adolescentes”, conta. Com a suspensão das aulas presenciais no cursinho da UEL, os conteúdos passaram a ser ofertados pela internet para toda a população.
Até o início da tarde desta quarta-feira, não havia previsão para a alteração da data do Enem na versão impressa. Em relação ao vestibular da UEL, a Cops (Coordenadoria de Processos Seletivos) não se posicionou oficialmente sobre a manutenção ou suspensão do cronograma. A data inicial prevista para a aplicação das provas dependia ainda de aprovação dos conselhos internos. A apreciação não foi possível em razão da suspensão das atividades na universidade em 17 de março. A coordenadoria deve se reunir nos próximos dias para debater a possibilidade de adiamento.


