Paris, 27 (AE) - Há três meses fala-se dele, mas ele continua sendo um homem indecifrável. Mas este aspecto "indecifrável" é exatamente o que lhe confere essa "aura" que explica o fascínio que ele exerce sobre o Ocidente.
Putin é misterioso para os ocidentais. E o é igualmente para os próprios russos. Os apelidos que os moscovitas lhe dão são muito eloquentes: "caixa-preta", "caixinha de surpresas" ou "iceberg". Estes apelidos dão um sabor paradoxal à brilhante eleição de domingo: 52% dos russos votaram a favor da "caixa-preta", de uma mensagem que ninguém está em condições de decodificar.
Com exceção desses apelidos, os russos não sabem grande coisa a respeito desse homem. A não ser que essa "caixa-preta" deu uma lição aos "bandidos" chechenos.
Os russos sabem mais uma coisa: se for o caso, esta "caixa-preta" pode usar palavras extremamente grosseiras. E aqui está sua mais bela façanha no campo da linguagem: "Nós atacaremos os chechenos até dentro das latrinas". É o linguajar dos "gangsters" (esses "gangsters" que Putin jura aliás querer erradicar). Em Moscou, a história das "latrinas chechenas" fornou-se clássica.
Mas, então, como os moscovitas nada sabem a respeito do homem que elegeram, quem sabe se possa esperar que os raros ocidentais que encontraram Putin nos esclareçam a seu respeito? Estes ocidentais são chefes de governo ou ministros .
Analisando suas declarações, o resultado é muito positivo: Putin agrada ao Ocidente. E aqui está o "retrato-robô": ele fala correntemente o alemão e domina o inglês. É inteligente. Domina seus súditos.
Madeleine Albright , secretária de Estado americana, ficou pasmada porque Putin compreende o que lhe dizem. E, quando responde a uma pergunta, não consulta suas notas. "Mantive muitos encontros (com outros altos responsáveis políticos)", disse Albright, "nos quais a única coisa que se fazia era consultar, de um lado e de outro, as notas escritas". Esta é uma visão bem pessimista a respeito dos politicos mundiais: pessoas incapazes de pensar sem recorrer às suas anotações.
Bill Clinton, cuja inteligência é brilhante, ficou igualmente bem impressionado: "Putin é capaz de ser um dirigente leal, eficaz e muito forte: Os Estados Unidos podem tratar com este homem". O ministro das Relações Exteriores da França, Hubert Védrine, teve um contato mais rude com Putin: o dirigente russo queixou-se amargamente porque a França critica a guerra na Chechênia. Apesar da dureza do encontro, Védrine compartilha a opinião de Clinton: "É um homem de grande qualidade, inteligente , conhecedor do mundo moderno".
O mais entusiasta de todos é o primeiro-ministro britânico Tony Blair. O ministro italiano Lamberto Dini, sem fazer qualquer julgamento a respeito de Putin, insurgiu-se contra a idéia de punir Moscou pela carnificina na Chechênia. O secretário geral da OTAN, George Robertson, considera Putim um homem "aberto e direto".
Neste concerto, há algumas vozes discordantes. Hervé de Charette, ex-ministro das Relações Exteriores da França, foi muito rude: "Putin é um cínico. Sua presença é ruim para a Europa". Uma das razões que explicam o verdadeiro "encantamento" que os visitantres experimentam diante de Putin é sua qualidade de ex-espião da KGB, da prodigiosa KGB. Será que nossos ministros lêem muito as histórias de James Bond e de John le Carré? A idéia de ficar frente a frente com um homem que, no tempo da guerra fria, da "perestroika" ou da democracia de Yeltsin, andava por caminhos subterrâneos e tenebrosos, os lança numa excitação quase erótica.
Podemos entendê-los: é verdade que um alto funcionário da KGB (e de sua herdeira, a FSB) deve ser inteliente, competente, patriota e implacável.
Mas outra pergunta vem à tona: "Estamos de acordo, Putin era da KGB e depois da FSB, mas qual era seu papel?" O simples fato de se formular esta questão é outro enigma: ninguém pode dizer com precisão o que fazia Putin na KGB ou na FSB. Alguns russos, aparentemente bem informados, acham graça dessa grandiloquência ocidental. A revista de Moscou "Novoie Vremia" (Novos Tempos) publica um longo estudo, bem denso, do qual só podemos reproduzir a conclusão: "Parem de tomar Putin por um espião-chefe, culto e grande político. Ele não é senão um pequeno agente comum da KGB, de idéias simplistas".
Resta uma hipótese: a de que o espião Putin foi muito astuto, muito sorrateiro para se fazer passar por um ex-espiãozinho de nada, quando na realidade teria sido verdadeiramente um grande espião.
Aí está um pacote de enigmas tão bem amarrado quanto um novelo de lã nas patas de um gato... Talvez os próximos dias irão permitir que os serviços especializados possam decifrar pelo menos uma parte dessa "caixa-preta", finalmente encontrada no fundo dos abismos.

mockup