Incra tira 55% dos sem-terra do MS da reforma agrária
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quarta-feira, 03 de setembro de 1997
Agência Estado Campo Grande 
Arquivo FolhaBombaAuxiliado por universitários, o instituto pesquisou acampamentos de sem-terra instalados em 21 municípios, entre eles Itaquiraí, onde há a maior concentração de acampados, com quase três mil famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra Das quase 9 mil famílias de sem-terra do Mato Grosso do Sul que reivindicam espaço no Programa Nacional de Reforma Agrária cerca de 55% não têm vocação para a vida rural, disse ontem o superintendente-adjunto do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Paulo Afonso Condé. Assim elas estão automaticamente excluídas do programa.
A informação está baseada em um levantamento feito por técnicos do órgão, auxiliados por alunos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Eles pesquisaram acampamentos de sem-terra instalados em 21 municípios, entre eles Itaquiraí, onde há a maior concentração de acampados, com quase três mil famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST-MS).
Antônio Pinheiro, um dos coordenadores do MST-MS, disse que o resultado da pesquisa caiu como uma bomba entre os sem-terra de Itaquiraí, pois das 2.060 famílias pesquisadas 1.114 foram reprovadas e excluídas da reforma agrária.
São pessoas que não têm onde cair mortas, portanto dispostas a qualquer tipo de reação e diante da conclusão do Incra é imprevisível o que poderá acontecer, disse Pinheiro, lembrando que hoje os sem-terra de Itaquiraí, acampados nas margens da BR-163, interromperam várias vezes o tráfego da estrada com um pedágio para arrecadar dinheiro destinado à compra de alimentos.
Pinheiros denuncia perseguição. Ele disse que o líder dos sem-terra de Sidrolândia, cidade a 180 quilômetros de Campo Grande, foi desclassificado apenas por ser militante do MST-MS. Trata-se de Sílvio de Souza Rodrigues que, segundo Paulo Condé, tem documentos provando ser escriturário e não agricultor. São casos como esse e outros semelhantes que tiraram milhares de famílias da reforma agrária, disse, comentando que nada foi feito sem o conhecimento das entidades que representam os sem-terra no MS.
O MST-MS tem quase três mil famílias de filiados acampadas no Estado aguardando assentamentos do Incra. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Mato Grosso do Sul (Fetagri) tem mais de seis mil famílias, informou o presidente da entidade, Geraldo Teixeira de Almeida. Ele ainda não sabe se realmente foram as famílias sem experiência na produção rural as excluídas da reforma agrária e prometeu reagir energicamente nos casos em que as famílias, comprovadamente rurais, foram reprovadas pelo Incra.
O Incra pretende assentar 2.500 famílias no MS até o final deste ano, meta na qual os sem-terra não acreditam. Os dirigentes das entidades que defendem a categoria afirmam que sem protesto a reforma agrária não funciona, apontando como lastimável a situação da maioria dos assentados pelo Incra até agora. Citaram como exemplo o assentamento Andalúcia, localizado no município Ivinhema, sul do MS, onde os materiais para construção das casas dos assentados, como madeira, tijolos, telhas e outros, estão amontoados na entrada principal por falta de acesso até os lotes das famílias.


