Arquivo FolhaAvaliaçãoFamílias na fazenda Santo Antônio; as reprovadas não farão parte de programas de assentamento A maioria dos sem-terra - incluindo a quase totalidade de seus coordenadores - que ocupa a Fazenda Santo Antônio, em Itaquiraí, no extremo sul de Mato Grosso do Sul, não possui perfil agrícola e está desclassificada para o programa nacional de reforma agrária. A constatação foi feita pela superintendência estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em cadastramento que envolveu 2.160 famílias do acampamento 8 de Março.
A liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), responsável pelo acampamento, reagiu com indignação ao resultado do cadastramento e disse que não aceitará a exclusão de qualquer integrante do acampamento dos programas de assentamento. Os dirigentes exigem a revisão do cadastro por considerarem que todos os acampados são trabalhadores e mesmo aqueles que nunca trabalharam a terra, poderão aprender a fazê-lo.
De acordo com o resultado do levantamento, concluído no dia 4 de agosto, 1.108 famílias avaliadas foram reprovadas por não nunca terem exercido qualquer atividade relacionada com o campo. Outros acampados não compõem família - são solteiros - ou não apresentaram os documentos solicitados. Do total de acampados, 1.046 foram classificadas por se enquadrarem nas normas exigidas pelo Incra para serem assentadas. Seis famílias não tiveram seus cadastros analisados.
Junto com o resultado do cadastramento, realizado quando os sem-terra estavam acampados às margens da rodovia BR-163 - antes da invasão da Santo Antônio - o Incra anunciou que as famílias reprovadas não poderão ser incluídas em futuros programas de assentamentos previstos para o Mato Grosso do Sul. Para as classificadas, recomendou que voltassem para as cidades de origem, onde deverão aguardar a chamada o que, segundo informaram, acontecerá depois que o órgão conseguir desapropriar terras na região.
A divulgação do resultado do cadastramento causou revolta entre os líderes do MST responsáveis pelo acampamento. Para eles o trabalho objetivou desmantelar o grupo de acampados e colocar em dúvida as lideranças. Segundo os líderes, 90% dos 38 coordenadores, entre eles o principal líder José Padilha dos Santos, o ‘‘Pipoca’’ foram desclassificados.
O dirigente estadual do MST, Lúcio Kuhnen Meuer, que passou os últimos dias no acampamento 8 de Março, classificou os resultados do cadastro como uma foi uma palhaçada. De acordo com Meuer, as famílias que nasceram no campo e sempre trabalharam a terra foram desclassificadas e vetadas para futuros assentamentos pelos critérios do Incra.
Além de Pipoca, que diz sempre ter trabalhado no campo, o Incra desclassificou Hélio Soto de Amorim, também coordenador que afirma ter sido criado em Londrina (PR) onde sempre trabalhou com o pai que arrendava terras para o plantio de algodão.
O mesmo, segundo o MST, aconteceu com João Pedro Alves, outro coordenador do acampamento 8 de Março, que diz ter vivido em terras arrendadas pelo pai no Paraguai até mudar-se para a região de São Carlos onde trabalhou como diarista no plantio e colheita de cana para a Usina Santa Cruz, daquela cidade.
O dirigente afirmou que a maioria das famílias que integra o acampamento é procedente de 23 municípios do sul do Estado. Cerca de 200 famílias vieram do Paraguai (brasiguaios) onde trabalhavam como arrendatários de terras. Segundo ele, antes de serem aceitas no movimento, todas foram submetidas a análise da coordenação. ‘‘Muitas famílias que já foram assentadas em outros lugares e depois venderam os lotes ou que possuem antecedentes criminais foram recusadas’’, disse.
Depois de admitir que o levantamento interno o MST não levou em consideração o perfil agrícola dos postulantes a terra, Meuer lembrou que o resultado do cadastramento do Incra serviu para unir ainda mais os acampados. ‘‘Nenhum dos que foram classificados deixaram o acampamento e continuam lutando para que todos sejam assentados’’, garantiu.

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