Incra deixa de investir 626 milhões
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 1998
Agência Folha 
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, órgão gestor da reforma agrária) deixou de investir no ano passado R$ 626,4 milhões em projetos de reforma agrária em todos os Estados do Brasil. O valor corresponde a 24% do total de recursos - R$ 2,59 bilhões - liberados do Orçamento da União em 1997 para a realização de desapropriações e assentamentos de sem-terra no país.
Os números foram levantados pela Cnasi (Confederação Nacional das Associações dos Servidores do Incra). Segundo a Cnasi, somente nos últimos três anos o Incra deixou de investir R$ 1,11 bilhão na reforma agrária. Em 1996, o instituto recebeu do governo federal R$ 1,57 bilhão e devolveu, no final do ano, R$ 245,72 milhões (15%). No ano anterior, deixaram de ser investidos R$ 243,21 milhões (16%) do total de R$ 1,52 bilhão liberado do Orçamento. O Incra aproveita mal os recursos. A autarquia precisa ser modernizada, ter um planejamento melhor. Até os próprios trabalhadores (sem-terra) deveriam participar mais, afirmou o diretor da Cnasi, Raimundo Amorim Pereira, 45 anos.
A Agência Folha não conseguiu localizar, por telefone, o diretor nacional de Administração e Finanças do Incra, Roberto José Rodrigues, em Brasília, para falar sobre a utilização dos recursos. O governo já anunciou que quer modernizar a estrutura do Incra.
Para atender à contenção de despesas imposta pelo governo federal para fazer frente à crise financeira internacional, o orçamento do Incra para 98 vai sofrer uma redução de 9% (R$ 194 milhões). O corte deverá atingir obras de infra-estrutura, como construção de estradas e eletrificação rural, e programas complementares, como o recadastramento de imóveis rurais e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária.
O presidente do Incra, Milton Seligman, disse na quinta-feira que o corte não afetará a meta de assentamento de 100 mil famílias, prevista para este ano. Segundo ele, também não serão atingidos os créditos fornecidos aos assentados relativos ao financiamento do plantio. O orçamento do Incra prevê R$ 270 milhões em obras de infra-estrutura. Deverão ser suspensas as que não tenham sido licitadas. O corte alimentará críticas do PT e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que consideram a reforma virtual.


