Incertezas sobre o papel da polícia nas eleições do Haiti
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000
Por Michael Norton, da AP 
Port-au-prince (AE-AP) - A única coisa sobre a qual os rivais políticos do Haiti concordam em relação à próximas eleições, um teste importante para a democracia que acabou de nascer, é que elas podem deteriorar-se numa onda de violência.
A chave para prevenir isso é a pequena e renovada força policial em terra, que já foi controlada pelo agora dispersado exército e suas dezenas de milhares de auxiliares paramilitares e milícias terroristas.
Alguns dizem que a força policial de 6.200 membros sofre com a falta de pessoal, é mal equipada e despreparada para a função. Então, a ONU estendeu a missão de oficiais de polícia armada que vêm treinando as forças do Haiti há cinco anos e deveria ter deixado o local no dia 30 de novembro.
Mas num país onde teorias de conspiração são comuns, não há falta de pessoas que acreditam que o perigo real vem dos políticos que podem lucrar com a instabilidade, semear a desordem e impedir a polícia de realizar seu trabalho.
"O problema não é a insuficiência de forças policiais treinadas", diz Leslie Manigat, ex-presidente, derrubado pelo golpe de 1988.
"O problema é que o governo que irá garantir a segurança para as eleições é não é confiável".
O acusação toca no explosivo problema central das eleições para o parlamento do dia 19 de março e o voto presidencial que segue-se no final do ano: os esforços de Jean-Bertrand Aristide de retornar ao poder.
O ex-padre católico tornou-se o primeiro presidente diretamente eleito em 1990, sucedendo uma série de déspotas que governaram o país com mãos cruéis, corruptas e incompetentes. Ele foi rapidamente deposto pelo exército, que levou à intervenção norte-americana em 1994 que o trouxe de volta do exílio.
O presidente norte-americano Bill Clinton enviou 20 mil soldados para o Haiti, em parte para impedir o êxodo de milhares de pessoas que fugiam para os EUA em barcos e o mundo prometeu US$ 1 bilhão para ajudar a promover a democracia no país.
Em 1995, quando uma simples cláusula aprovou Aristide, sob a falecida constituição, ele escolheu Rene Preval para candidato à presidência. A administração Preval vem sendo marcada por momentos de violência e fortes suspeitas de que Aristide, que coordena um partido político e uma fundação sem fins lucrativos, é o chefe realmente responsável.
Preval expulsou os legisladores do Parlamento para dar fim a uma briga de 18 meses sobre corrupção durante as eleições e nomeou um governo por decreto no ano passado. A economia do Haiti está em queda livre, o crime está crescendo e a população está mais pobre e insegura do que nunca.
Os rivais estão convencidos de que a efervescência em alta está sendo instigada por forças pró-Aristide, o que ajuda a criar a imagem de que ele é um salvador em tempos de crise. Apesar de tais condenações serem rotineiramente negadas e difíceis de provar, na cultura política bizantina do Haiti elas são consideradas fatos reais por muitas pessoas.
Temores de que a polícia será manipulada existem desde que Aristide saudou seus primeiros membros na cerimônia de juramento
com o slogan de eleição do seu partido: "Juntos, juntos, nós somos Lavalas!" Leis têm sido violentamente impostas.
A polícia matou mais de 150 civis nos últimos quatro anos, e pessoas não identificadas atiraram e mataram mais de 160 policiais. Centenas de oficiais foram condenados por uso excessivo da força e por crimes que vão de latrocínio a assassinato. Há mais de 50 deles na cadeia.
"Muitos deles não são mais do que ladrões", diz Michael Lucius, chefe da inteligência da polícia.
No ano passado foi registrado um aumento da violência associada à campanha eleitoral, mas a polícia não efetuou qualquer prisão.
Em março, o ex-senador da Organização de Luta Popular, o maior partido no parlamento que faz oposição a Aristide e a Preval, foi morto a tiros. Tiros também foram disparados em frente às casa de diversos legisladores do partido e escritórios de campanha eleitoral foram queimados.
Pode-se acompanhar violentas demonstrações dos partidários de Aristide pedindo a demissão de altos oficiais policiais. Perval forçou seu sub-secretário nacional de segurança, Robert Manuel, a se demitir depois que ele criticou os protestantes. O provável sucessor de Manuel foi então assassinado e um atirador quase matou o oficial que investigava o assassinato.
Os partidários de Aristide brecaram a recente abertura de uma campanha cívica educacional, borrifando os candidatos com urina.
"Hoje, a situação é um gêmeo idêntico" à campanha de 1987, quando a oposição deixou o processo em meio a um banho de sangue, disse Wilfrid Saint Juste, porta-voz da oposição.
Tais temores estimularam a ONU a deixar 140 instrutores civis de polícia no Haiti até a entrega da situação para uma missão técnica da ONU, desarmada e menor, marcada no dia 15 de março.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse: "Demonstrações de violência devem ser temidas durante o período pré-eleitoral".
A polícia promete fazer o melhor que pode. "Com ou sem a comunidade internacional, nós iremos garantir a segurança do processo eleitoral", disse Anthony Charlier, um veterano policial.
Evans Paul, líder a oposição, acredita que a força policial é uma força política. "Preval pode jogar todo o peso de seu governo, incluindo a polícia, para trabalhar em favor dos candidatos de Aristide". Mas Paul notou que a polícia interrompeu violentos partidários de Aristide ao impedir alguns partidário de tumultuar alguns comícios da oposição. "Quando a polícia quer fazer seu trabalho, ela faz", disse ele.


