"Seria muito ingênuo dizer que temos uma situação favorável. Não temos", lamenta Regina Alegro
"Seria muito ingênuo dizer que temos uma situação favorável. Não temos", lamenta Regina Alegro | Foto: Marcos Zanutto



As imagens do incêndio que destruiu o Museu Nacional, na zona norte do Rio Janeiro, na noite de domingo (2), correram o mundo. O fogo destruiu 20 milhões de itens da instituição de 200 anos de história. Londrina enfrentou recentemente uma tragédia similar. Em fevereiro de 2012, o fogo destruiu o Teatro Ouro Verde. O episódio motivou um movimento de atualização das necessidades de prevenção do Museu Histórico da cidade.

É o que se pode tirar de uma tragédia: a esperança de que as medidas preventivas sejam tomadas para proteger as instituições culturais, como explica a diretora do Museu Histórico de Londrina, Regina Alegro. "Aos poucos, nos adequamos. Temos sinalização de emergência e extintores atualizados", garantiu. A mesma afirmação foi dada pelo secretário municipal da Cultura, Caio Cesaro, sobre as condições de segurança do Museu de Arte e da Biblioteca Municipal. Todos esses prédios, da década de 1950, necessitam de reparos constantes.

Para Alegro, as instituições museológicas do País, sem exceções, estão em risco por conta da limitação de investimentos. "Seria muito ingênuo dizer que temos uma situação favorável. Não temos." "Na área de patrimônio, que exige técnica especificada, há menos dinheiro", concordou a responsável pelo Compac (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Londrina), Vanda Moraes.

Projeto de reparos no Museu de Arte está pronto desde 2006, mas ainda não saiu do papel por falta de recursos
Projeto de reparos no Museu de Arte está pronto desde 2006, mas ainda não saiu do papel por falta de recursos | Foto: Marcos Zanutto



MUSEU HISTÓRICO
O Museu Histórico de Londrina recebe 50 mil visitantes por ano e conta com um acervo considerável. São 600 mil documentos em papel e quantidade equivalente de fotografias, além de pouco mais de 8.000 peças de objetos tridimensionais. Segundo Alegro, sensores de fumaça nos ambientes de acervo e extintores específicos foram instalados recentemente. "Jogar água sobre os documentos não faz sentido, são necessários diferentes tipos de extintores para diferentes ambientes. Seguimos o protocolo", garantiu Alegro.

Uma obra no pátio do Museu Histórico deve ser concluída em setembro: a reforma na casa de bombas de incêndio. "Estamos terminando a obra com a adequação elétrica", explicou. A manutenção prevê uma instalação elétrica independente - fora do prédio do museu - para alimentação da casa de bombas. O recesso de 7 de setembro será aproveitado para a aplicação do verniz antichamas no assoalho da parte superior e nas rotas de fuga. "Assim, a madeira não queima", explicou. Outra estratégia de prevenção é a conservação da rede elétrica. "No Ouro Verde já se sabe que começou pelo teto [o incêndio]. No Museu da Língua Portuguesa [em 2015, em São Paulo] foi a rede elétrica", comentou.

Na museologia existem regras como determinar quais obras devem ser resgatadas prioritariamente em caso de incêndio. No Museu Histórico foi estabelecida a prioridade da coleção do fotógrafo pioneiro de Londrina, José Juliani (1896-1976), incluindo os negativos de vidro.

O Museu Histórico já passou por uma grande reforma: foi reinaugurado há 18 anos com a adequação do prédio da antiga estação ferroviária. "O projeto elétrico é dessa época", comentou a diretora. Alegro exibiu a área onde são guardados os negativos fotográficos conservados com uso de películas de tratamento contra fungos, invólucros com pastas em papel neutro. Os arquivos são separados em armários em uma sala climatizada e com controle da umidade.

ESTRATÉGIAS
Os funcionários dos museus e instituições culturais da cidade têm curso de brigadista.
Uma reserva técnica adequada, separada do prédio de exposição, além de documentos digitalizados e guardados em espaços diferentes de onde ficam os objetos físicos, são outras maneiras de preservar a memória dos museus. Atualmente, a reserva técnica fica dentro do prédio.

"Estamos digitalizando o acervo fotográfico e colocando no sistema de base dos museus do Paraná, o que facilita até a consulta pública", explicou. São cerca de 5.000 itens já catalogados no sistema. "A universidade está instalando até o fim do ano uma rede de fibra ótica que vai permitir uma comunicação direta com o campus. Poderemos enviar com mais facilidade dados para a guarda", confirmou.

'TRAGÉDIA DIÁRIA'
Enquanto uma tragédia como um incêndio destrói peças instantaneamente, o Museu Histórico passa por um processo lento de "destruição da memória": a dificuldade da conservação. No setor de imagem e som não há nenhum funcionário hoje. "Nós estamos operando com a boa vontade de voluntários, de funcionários que já se aposentaram e ficam desesperados de ver a situação que estamos, da angústia de ver um acervo sem cuidado", lamentou.

Sem técnico não há como cuidar ou receber estudantes no setor. "É um modo menos perceptível para a população de uma tragédia que vai se concretizando. Não é como um incêndio que provoca uma devastação e choca de uma vez só. Temos um modo de devastar as coleções e o patrimônio pelo não investimento no dia a dia e pela privação do cuidado especializado que colabora para a conservação e comunicação dessas peças", criticou.

Emocionada com a tragédia do Rio, a historiadora comparou a atuação de equipes de cultura e patrimônio com uma militância. "O que aconteceu com o Museu Nacional é a explicitação do risco que cada instituição de memória corre no Brasil. O museu fez tudo o que pôde. Mas em relação aos poderes, a quem deveria garantir a sobrevivência dessas instituições, estamos muito solitários e sem apoio", lamentou.

Um projeto de reparos no Museu de Arte está pronto desde 2006, mas ainda não saiu do papel por falta de recursos, conforme alertou Vanda Moraes. "O que a equipe que vem trabalhando todos esses anos conseguiu é realizar alguns serviços previstos para assuntos emergenciais", explicou. "A biblioteca tem seus reparos de revitalização, mas há algum tempo não tem uma ação mais forte", disse.

Segundo Cesaro, já há um projeto de revitalização do telhado e da calçada da Biblioteca Municipal e de reparos nos vidros e corrimãos do Museu de Arte, exigidos pelo Corpo de Bombeiros. O Teatro Zaqueu de Melo, que funciona no prédio da Biblioteca Municipal, foi interditado há mais de um ano.(Leia mais na Folha 2)

mockup