Até a década de 1990, era comum ver crianças e adolescentes em situação de rua cheirando cola de sapateiro em saquinhos de leite. Hoje, pedras de crack dominam as bocas de fumo. Porém, os inalantes em geral ainda estão entre as drogas mais utilizadas pelos adolescentes no Brasil, segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Há pelo menos 20 anos, o instituto realiza levantamentos epidemiológicos sobre o consumo de drogas entre estudantes da rede pública de ensino. O último, realizado em 2004 nas 27 capitais brasileiras, apontou que os inalantes ficavam atrás apenas do álcool, do tabaco e da maconha. Quando avaliados pela frequência de uso, subiam para a segunda posição, com 16,3%, perdendo apenas para o tabaco, com 29,5%.
Em junho, diante da lacuna sobre o contexto de uso de drogas entre os estudantes dos ensinos fundamental e médio da rede particular, outra pesquisa foi divulgada. Essa revelou que os inalantes perdiam apenas para o álcool e o tabaco. Estudantes de ensino fundamental relataram maior uso de inalantes lícitos - especialmente esmalte e acetona -, enquanto estudantes de ensino médio relataram maior uso de inalantes ilícitos - lança-perfume e loló.
A pesquisa mostrou ainda que inalantes também foram consumidos pela primeira vez em idade precoce - 50% dos que experimentaram o fizeram até os 14 anos. Diante disso - ainda que o álcool seja imensamente predominante em relação aos inalantes - os dados apontam para uma realidade negligenciada. Isso porque, aliado ao preço baixo e ao fácil acesso, produtos como isqueiros, esmaltes, solventes, gasolina e aerossóis acabam virando potenciais substâncias psicoativas nas mãos de crianças e adolescentes.
Ao alcance das mãos
E foi por estar ali, bem ao alcance, que o adolescente José (nome fictício) se viu tentado a experimentar um desses produtos. ''Estava com 11 anos e trabalhava como auxiliar numa oficina mecânica. Meu serviço era limpar as peças dos carros com tíner. Não demorou para que eu cheirasse o líquido'', lembra o rapaz, hoje com 15 anos. ''A molecada usa e toma coisas que os pais nem imaginam. Tem vários produtos que estão em casa mesmo'', revela.
Pelo fácil acesso, a vontade, movida principalmente pela curiosidade, foi o ''start'' de dias e mais dias inalando o tíner. ''A sensação de euforia durava poucos minutos. Logo parti para outras coisas. Comecei a comprar benzina na farmácia.'' Para um anti-inflamatório que ingerido em grande quantidade e com álcool desencadeia alucinações, foi um passo. ''Daí por diante foi a maconha e depois a cocaína'', diz.
A mistura e o excesso de drogas fizeram que várias vezes o adolescente se sentisse mal. ''Tinha dias que suava frio, não conseguia respirar, a língua ficava seca e sentia choques pelo corpo. Parecia que ia morrer. Tempos depois, entretanto, ele procuro ajuda. Há três meses está em tratamento em uma casa de recuperação.

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