Inadimplência e evasão impactam ensino superior privado
Sindicato das mantenedoras estima que 265 mil alunos tenham interrompido cursos de graduação durante a pandemia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Sindicato das mantenedoras estima que 265 mil alunos tenham interrompido cursos de graduação durante a pandemia
Viviani Costa - Grupo Folha 

Desemprego, redução ou suspensão nos contratos de trabalho, queda nos lucros dos microempreendedores e dificuldade de adaptação ao ensino remoto já levaram milhares de estudantes a trancar a matrícula em cursos de graduação ofertados pelas instituições particulares de ensino superior no Brasil.
Pesquisa realizada pelo Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) estima que 265 mil alunos em todo o País tenham interrompido a jornada acadêmica por meio do cancelamento ou trancamento das matrículas entre os meses de abril e maio, início da pandemia de Covid-19. Os números devem aumentar ainda mais no mês de julho, com a conclusão do primeiro semestre do calendário letivo.
A universitária Priscila Moreira, 22, está entre os estudantes que não viram outra saída diante da crise. A jovem de Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina) cursava comunicação social, com habilitação em jornalismo, em uma instituição particular de Londrina. Ela trancou a matrícula após concluir as provas do quinto semestre do curso.
“Meu pai trabalha com jukebox e as locações são para bares. Os bares foram os primeiros a fechar em março e ele está sem renda desde então. Logo no início da pandemia, como eu tinha sido a última pessoa a ser contratada no meu serviço, a minha patroa teve que fazer cortes devido à crise e ela acabou me desligando da empresa. Eu acabei ficando sem serviço e a minha mãe também ficou sem serviço. Então, eu não vi outra possibilidade a não ser trancar a faculdade. Foi uma decisão bem difícil. Fiquei alguns meses pensando, mas não vi outra opção”, lamenta.
Logo no início das dificuldades financeiras, a estudante tentou negociação com a instituição, mas não obteve retorno. “Olhando em amplitude, a gente não vê quando vai voltar ao normal ou quando isso vai ter uma estabilidade. Quero voltar o curso em 2021, mas não sei se na mesma universidade. A pandemia foi só uma pedra. Eu não vou desistir do meu sonho. Vou passar por isso e vou continuar. Logo vou estar formada, se Deus quiser, e vai dar tudo certo para todo mundo.”
O ingresso de novos alunos no segundo semestre representa cerca de 30% do total de matrículas anuais nas instituições privadas. O diretor-executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, aponta que pode haver uma queda de quase 50% no número de estudantes que iriam iniciar a graduação ainda em 2020.
“Com a perspectiva de que as aulas presenciais não vão retornar neste segundo semestre, pode haver, combinado com a questão financeira, um aumento da evasão na virada do semestre, quando os alunos precisam se rematricular. Hoje as escolas têm um tempo maior para se planejar para o segundo semestre, mas muitos alunos têm problemas de acesso, problemas com equipamentos ou não se adaptam a esse modelo de aula remota que é, infelizmente, a única solução possível neste momento da pandemia”, avalia.
Diante desse cenário, Capelato afirma que as instituições precisam analisar a possibilidade de soluções financeiras para alunos que enfrentam dificuldades como a suspensão do pagamento das mensalidades por um período ou até um número maior de parcelas com valores reduzidos. Segundo ele, a transparência na gestão, com detalhes do planejamento do curso, também traz mais segurança para os estudantes.
O diretor-executivo do Semesp defende ainda que o governo federal repense formas de financiamento estudantil diante da crise, já que o setor privado responde hoje por 75% das matrículas no ensino superior no Brasil.
“Mais de 70% dos alunos são das classes C, D e E, que têm problemas financeiros, que foram muito impactados pela crise e que vão deixar de estudar por essas questões. Se você tiver um financiamento em que ele consiga pagar o curso em um prazo maior, depois de formado, sem juros etc. Isso seria uma ferramenta muito importante para reter o estudante e atrair jovens que estão saindo do ensino médio agora e que, dada a situação toda, vão acabar postergando a entrada ou talvez nunca entrando no ensino superior.”
Além da estimativa de evasão com aumento de 14,2% em maio em comparação com o mesmo mês do ano passado, o levantamento realizado pelo sindicato apontou ainda o crescimento da inadimplência. A taxa registrada em maio foi de 23,9%, resultado 51,7% maior em comparação com maio de 2019. Entre as instituições menores com até 7 mil alunos, o índice chegou a 61,5%, considerando o ensino presencial e a modalidade a distância. A pesquisa é baseada em informações repassadas por 146 instituições em todo o País.
Instituições de ensino buscam negociação
Algumas instituições têm ofertado condições especiais para que os estudantes não interrompam a graduação e pós-graduação durante a pandemia. A Universidade Positivo, por exemplo, aprimorou o Programa Proteção-Desemprego, implantado desde 2016 na instituição. Com a Covid-19, o programa passou a disponibilizar a suspensão temporária do pagamento de até três mensalidades. O aluno poderá quitar os valores ao término do curso. Um parcelamento especial (sem a aplicação de juros e multas) para mensalidades vencidas durante a pandemia também foi criado neste período.
O economista e reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins, relata que o setor enfrenta um cenário desafiador nos últimos anos com ajustes internos nas instituições. Para ele, os estudantes precisam de políticas públicas mais efetivas para ingressar no ensino superior, de uma forma geral.
“Não existe formação de nível universitário no mundo sem alguma política pública. Não para o empreendedor, mas para o estudante. Veja, o Brasil tem 8 milhões, para arredondar a conta, de alunos na educação superior. Desse total, só 25% estão em instituições públicas municipais, estaduais e federais. Da população de 18 a 24 anos, apenas 20% entram na educação superior. Se não houver essa política, a educação superior fica dependendo de um crescimento econômico que não vem. Vamos terminar o ano com uma recessão brutal e com o aumento no desemprego. Quando a recessão se instala, a falta de perspectiva de trabalho desestimula a procura pelo ensino superior”, analisa.
A PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) informou, por meio de nota, que também realiza atendimento individual dos estudantes que precisam de flexibilização para o cumprimento financeiro dos contratos. “A universidade entende que a definição de uma única medida não atenderá à particularidade dos estudantes que estão com dificuldades financeiras e vivem realidades muito distintas. Por este motivo, serão deliberadas medidas individuais àqueles que comprovarem a necessidade de apoio no pagamento de mensalidades durante este momento de pandemia.” (V.C.)
Demissões x qualidade no ensino
Demissões de docentes em instituições privadas têm ocorrido com frequência em todo o País. O Sinpro (Sindicato dos Profissionais das Escolas Particulares de Londrina e Região Norte) estima que cerca de mil profissionais, entre docentes e funcionários, tenham sido dispensados em 2020. O número abrange demissões registradas em estabelecimentos desde a educação infantil até o ensino superior.
Grande parte das dispensas, em torno de 70%, ocorreu logo após o início da pandemia. As demais foram contabilizadas nos últimos 90 dias. O presidente do sindicato, André Cunha, afirma que a perspectiva de demissões para o segundo semestre depende da retomada ou não das atividades presenciais. Sem o retorno das aulas, o impacto poderá ser maior.
A dispensa de professores também tem ocasionado discussões sobre a qualidade no ensino. “Temos situações, principalmente no ensino superior, que alegando aumento na inadimplência, há demissão de profissionais com valores salariais mais altos e a contratação de profissionais com valores salariais menores. Isso impacta, com certeza, a qualidade do ensino”, avalia. (V.C.)


