Agência Estado
De Cuiabá
Quadrilhas de pistoleiros formadas por PMs, assassinatos de líderes rurais, juízes e políticos, venda de sentenças para presos, suspeitas de envolvimento de desembargadores com o narcotráfico internacional. Um dos principais produtores de grãos do País, o Estado do Mato Grosso parece, hoje, uma terra sem lei, onde quem denuncia está marcado para morrer. O assassinato do juiz Leopoldino Marques do Amaral, no início do mês, só é mais um caso na farta crônica policial do Estado.
São casos como a execução de José de Arruda Silva, 24 anos, irmão do prefeito de Alto Paraguai, Eduardo Gomes (PMDB), há seis meses. O prefeito tem certeza que seu irmão não era o alvo. ‘‘Os tiros eram para mim, sei quem são os mandantes, porque só a uma pessoa interessava minha morte’’, diz. Segundo a polícia, o mandante do crime seria o vice-prefeito do município, Antônio da Silva Daltro (PFL).
No dia 30 de março, o prefeito de Xavantina, José Frederico Fernandes (PFL), foi assassinado com 18 tiros de calibre 12. A suspeita recai sobre o vice-prefeito Esdras Fernandes (PPB). Mesmo com prisão preventiva decretada, Fernandes responde pela prefeitura e, ainda, se casou com a viúva da vítima.
No caso do vereador Milton Muller (PTB), morto com um tiro na nuca, há três anos, os executores ainda tiveram o requinte de deixar um bilhete dentro da cabeça da vítima: ‘‘Este é o destino do alcaguete’’. O vereador havia denunciado irregularidades.
A Secretaria de Segurança do Estado nem sequer tem um acompanhamento confiável dos crimes mais comuns praticados no Estado. ‘‘A elucidação desses crimes e de muitos outros é uma questão de honra para o Estado’’, cobra o promotor João Batista de Almeida, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá.
Almeida é responsável por processos criminais que causaram comoção no Estado, como o das ‘‘Mães de Tijucal’’. A funcionária pública Odilza Sampaio, a auxiliar de enfermagem Alda Maria Soares e a dona-de-casa Círia Fernandes Francisca, vivem a angústia do desaparecimento brutal de seus filhos – Marcos Henrique Sampaio, 16 anos, Ed Nelson Soares, 17, e Vilmar da Silva Fernandes, 15.
O principal acusado do desaparecimento, o ex-policial civil João da Silva Mendes, o ‘‘Mestre Caravelas’’, está preso, não pelo crime, mas pelo o do assaltante Adriano de Lima Barbosa, em 1996.
A sensação de impunidade no Estado chegou ao auge com as denúncias do juiz Amaral, que abalaram a credibilidade do Tribunal de Justiça.
‘‘Mato Grosso está vivendo hoje um clima de total insegurança; aqui é o faroeste brasileiro’’, afirma o padre jesuíta José Tencate, presidente do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Henrique Trindade.
Na quinta-feira, o Supremo Tribunal de Justiça, em Brasília, reconduziu, através de concessão de liminar, o juiz José Geraldo Palmeira a 1ª Vara de Falências e Concordatas do Estado, depois de um ano e cinco meses de afastamento determinado pelo TJ.
Palmeira é denunciado por concessão de privilégios e liberação ilegal de traficantes, facilitação de prostituição em presídios, corrupção ativa, falsidade ideológica e subtração e inutilização de documentos públicos.

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