Imprensa francesa acerta em denunciar escândalos Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 11 (AE) - Uma das distrações preferidas dos círculos que detêm o poder (ministros, grandes empresários, pessoas que decidem, financistas ou investidores das Bolsas) consiste em denunciar as indiscrições dos jornais ou da TV. Pode acontecer que um repórter transmita informações mentirosas, exageradas ou prematuras. Mas, quantas vezes, em contrapartida, descobrimos que a imprensa, bem longe de ser um obstáculo, é, ao contrário, a reveladora da verdade?
Alguns casos recentes na França convidam a esta reflexão. Quatro vezes pelo menos, foi a imprensa que "ateou fogo às cinzas", que chamou a atenção para erros e escândalos. E, em cada um desses casos, o poder público, depois de inicialmente ter gritado contra os jornais, foi mais tarde obrigado a corrigir erros graves.
Primeiro exemplo: Há vários meses, os jornais (Le Canard Enchainé, Libération, etc.) vinham relevando que o Ministério das Finanças acumulou estupendos superávits, sem que ninguém o soubesse.
Naturalmente, o poder público rangeu os dentes, gritou, negou
afirmou que os chamados "super-benefícios" eram imaginários. Contudo, no final das contas, o ministro das Finanças foi obrigado a confessar. Admitiu um "super-benefício" de 30 bilhões de francos ( na realidade este "super-benefício" é de 40 bilhões).
Segundo exemplo: Os jornalistas judiciários, analisando os processos, afirmam que um veredicto dado por um tribunal criminal deveria poder ser contestado através de recurso, o que não acontece na França, onde o veredicto é irreversível. Aí também as autoridades disseram que os jornalistas são pessoas "emotivas", que não entendem nada. Apesar disso, no decurso de algumas semanas, os deputados terminaram entendendo as críticas dos jornalistas e a Assembléia Nacional votou, por unanimidade, a criação de um processo de recurso nos tribunais criminais.
Terceiro exemplo: Uma médica que trabalha num dos maiores presídios da França, publicou seu diário mostrando as condições bárbaras, alucinantes, em que vivem os prisioneiros.
A imprensa divulgou. O povo leu, com repugnância, as histórias de sevícias, de humilhações, de crueldades impostas aos presos. E então os deputados modificaram a lei e finalmente se preocuparam com os direitos dos presidiários.
Quarto exemplo: casos de corrupção estouram aqui e ali: um famoso político, um magnata da indústria, a mulher de um dos responsáveis pelas grandes decisões, um ex-ministro ou até um ex-primeiro-ministro, que se beneficiam de mordomias, de empregos-fantasmas, de regalias injustificadas, de "comissões exorbitantes". Os jornais divulgam, fazem suas investigações. Todas as vezes, a classe política, a classe financeira, berram contra a imprensa. Mas a magistratura (que, pelo menos, é honesta) faz uma investigação e quase sempre reconhece que os repórteres disseram a verdade.
Poderíamos continuar esta lista. Poderíamos lançar um olhar de relance em outros campos. O que saberíamos a respeito das atrocidades cometidas pelos soldados russos em Grozny e na Chechênia, se os jornalistas, expondo sua vida, não nos tivessem mostrado esse inferno e essa vergonha? São homens e mulheres solitários. Vão pelo mundo todo apenas com seus olhos, suas câmeras, seus micros, sua coragem. E graças a eles, algumas mentiras, alguns roubos ou alguns crimes deixam de ficar impunes.





