Imprensa argentina instiga nacionalismo argentino contra o Brasil14/Mar, 14:59 Por Vladimir Goitia Buenos Aires, 14 (AE) - O temido êxodo de indústrias argentinas para o Brasil, onde alguns Estados travam uma verdadeira guerra de incentivos fiscais para atrair investimentos internos e externos, vem sendo potencializado de forma exagerada pela imprensa argentina. Não existem, nem no governo e muito menos no setor privado, dados estatísticos que provem quantas empresas realmente teriam trancado as suas portas dispensado seus funcionários e empreendido transferência ao Brasil. Os jornais limitam-se a publicar apenas as ameaças de empresas que estariam abandonando a Argentina, mas sem comprovar se de fato ocorreram as transferências para o Brasil ou dimensionar os custos dessas operações. De acordo com a Embaixada do Brasil em Buenos Aires, os que se aventuraram a sair da Argentina não teriam passado de 30 desde que o Brasil decidiu desvalorizar o real, em janeiro do ano passdo. O Grupo Brasil, do qual fazem parte mais de 200 empresas que investiram US$ 6 bilhões desde 1995, criando 11 mil empregos diretos, contabiliza 28. E mais, a maioria, se não todas, do setor de autopeças e adquirida por multinacionais. Estas sim iniciaram um processo de reestruturação nos países do Mercosul, transferindo algumas de suas linhas de produção por causa de necessidades ou exigências do mercado. O diretor da Maxion International Motores Argentina, Pérsio Lisboa, explica que eventuais decisões de transferência de investimentos da Argentina para o Brasil "não têm a ver apenas com custos de produção, mas também com perspectivas de mercado". Para ele, um dos principais componentes do temor argentino sobre o êxodo de indústrias - principalmente do setor de autopeças - para o Brasil é a indefinição do regime comum automotivo para o Mercosul, o que estaria colocando uma espécie de venda sobre os olhos do empresariado argentino. Ele acredita que esse setor na Argentina precisa começar a pensar em competir internacionalmente e não restringir a sua atuação apenas ao âmbito regional. General Motors - Indagado sobre o que teria levado a General Motors a tranferir a sua unidade de montagem da pick up Silverado para o Brasil, Lisboa é taxativo ao afirmar que a causa não foi o aumento do custo da produção em relação ao Brasil e muito menos os incentivos fiscais ou financeiros concedidos por alguns Estados do País. Ocorre que o Silverado fazia parte da linha de pick ups "full size" (com motores de grande porte) que foi praticamente "canibalizada" pela linha de pick ups "mid size", modelos fabricados com motores menores, mais leves e mais baratos, porém com a mesma potência e com o mesmo desempenho para carregar o mesmo peso. Além disso eram muito menos confortáveis do que as pick ups mais leves da Ford (Ranger) e da própria GM (S10). A solução encontrada para o Silverado pela montadora foi transferir essa unidade para o Brasil. Ou seja, era melhor ter a linha de montagem desse veículo, totalmente amortizada, no Brasil do que jogá-la literalmente no lixo. A imprensa argentina no entanto, em momento algum explicou esses motivos. Preferiu instigar o nacionalismo argentino contra o Brasil. Paternalismo - Como alguns séculos atrás, parte da imprensa argentina ainda atua com a mentalidade de que o Estado argentino precisa proteger certos setores do país, entre eles os de empresários que têm trânsito fácil no meio editorial. Quem acompanha diariamente os jornais argentinos, que trazem ultimamente alguma informação sobre a transferência de alguma empresa, dificilmente não se fará esta pergunta: Quanto realmente custa uma operação de transferência como essas? Muito dinheiro, responde Pérsio Lisboa, diretor da Maxion Argentina, subsidiária da Maxion Brasil. "Decisões semelhantes trariam custos altíssimos para qualquer empresa, principalmente com o pagamento de indenizações para os trabalhadores argentinos", afirma Lisboa. A Maxion Argentina, por exemplo, tem muito dinheiro investido na Argentina (US$ 20 milhões em cinco anos) e não seria nada razoável e muito menos lógico fechar a fábrica e, depois, jogá-la no lixo. Existem ainda argumentos mais sólidos para justificar a permanência no território argentino do que apenas os financeiros. Segundo recente levantamento feito pela Maxion Argentina, a sua unidade industrial na província de Córdoba mostra que 50% dos trabalhadores têm 2º grau (secundário) completo, 31% o 1º Grau e 19% nível superior. Ou seja, praticamente 70% dos funcionários têm perfil de escolaridade bem acima da média de qualquer indústria do setor instalada em qualquer um dos países do Mercosul. "Não seria fácil jogar tudo isso no lixo e tranferir-nos para o Brasil. O custo seria alto demais se tivermos, por exemplo, de abrir mão de tudo isso para começar do zero e ainda mais para treinar pessoas que possam recriar uma cultura de produção com a experiência excepcional conseguida em Córdoba", argumenta Lisboa, da Maxion Argentina. Mas a imprensa argentina parece não querer saber nada disso. Prefere publicar quase que literalmente o primeiro grito dos que aparecem nas portas dos ministérios (Economia e Indústria e Comércio) para reclamar da complicada situação do país por causa da desvalorização do real - nem mesmo mencionam a questão da conversibilidade que atrelou a moeda argentina ao dólar, na paridade de um por um, desde abril de 1991. O ministro de Economia, José Luis Machinea, diz que, no seu país, os empresários habituaram-se a entrar no Ministério de Indústria e Comércio, exigir benefícios e afirmar que vão embora para o Brasil se não obitiverem algumas concessões. "Virou um verdadeiro esporte", afirma Machinea.

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