Porto Alegre, 12 (AE) - O modelo de inserção do Brasil e dos seus parceiros do Mercado Comum do Sul (Mercosul) no processo de globalização foi criticado hoje durante os simpósios da 51.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A submissão dos interesses nacionais aos países centrais e ao trânsito descontrolado dos capitais financeiros foram apontados como limitantes do desenvolvimento econômico e social sustentado da região.
O crítico mais contundente foi o professor Paulo Nogueira Batista Júnior, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Universidade de São Paulo (USP). Ele chegou a classificar de "exagerada" a importância dada ao bloco econômico e de "perigosa" a necessidade de o País atrelar suas decisões econômicas e políticas aos interesses do Mercosul, especialmente da Argentina, que "foi bem mais longe na descaracterização" do Estado nacional.
"A Argentina fez coisas inacreditáveis no terreno monetário e hoje tem uma meia moeda, em que o peso é apenas uma espécie de recibo de depósitos em dólar", disse o professor. Já com base na experiência recente do Brasil, ele considerou um "fiasco" o resultado da liberalização do mercado nacional a partir do início da década, que provocou um crescimento da economia a taxas inferiores às da "década perdida" de 80, um "desemprego muito maior" e uma elevação da dívida pública de 30% para 50% do Produto Interno Bruto (PIB).
Banco Central - Durante a conferência Há alternativas para o neoliberalismo no Brasil e no Mercosul?, Paulo Nogueira defendeu um Banco Central "intervencionista" nos fluxos de capitais voláteis e no controle do perfil do endividamento externo. "É preciso estabelecer prazos mínimos para o passivo de curto prazo e administrar os compromissos de longo prazo para evitar vencimentos concentrados", afirmou.
O professor disse ainda que o BC deve estabelecer um "viés não declarado" de desvalorização do real para garantir a competitividade global das empresas brasileiras, ampliar as exportações e reduzir o déficit na balança de pagamentos. Ao mesmo tempo precisa expandir e baratear o crédito interno para aumentar a demanda agregada e permitir a retomada do crescimento.
Estímulo - A combinação dessas estratégias, contudo, não elimina a necessidade de "equilibrar" o estímulo à produção e ao consumo internos com a abertura às importações. O cuidado é indispensável para evitar aumentos de preços e "poder de mercado excessivo" de alguns setores, ressalvou Paulo Nogueira. O palestrante também classificou de "escapista e passiva" a reação do governo brasileiro aos riscos da volatilidade dos mercados. Lembrando que o presidente Fernando Henrique Cardoso tem se tem limitado a lançar "apelos" aos países avançados pela reforma do sistema financeiro internacional. Para ele, não é possível esperar alguma atitude corretiva do Grupo dos Sete (G-7, que reúne os países mais industrializados do mundo), a menos que a crise atinja "pesadamente" o centro econômico mundial.
Para o professor Antônio Elizalde, da Universidade Bolivariana do Chile, que falou antes de Paulo Nogueira, no simpósio Desafios da integração do Mercosul, o modelo de inserção do bloco no mercado global está provocando a "reprimarização da economia" e a internacionalização do sistema financeiro nos moldes do início do século. "Os déficits externos são crescentes e os Estados estão perdendo a capacidade de regulação e se transformando em meros provedores de serviços", disse.
Paralelamente ao evento principal está sendo realizado em Porto Alegre, pela 7.ª vez, o encontro SBPC Jovem, que é destinado ao público de 1.º e 2.º graus, com temas semelhantes ao evento principal. //FIM/RGR/REDAEGER/

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